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Talvez o bem que você queira para mim não seja o bem que necessito

     Talvez o bem que você queira para mim não seja o bem que necessito... Manuela ficara lendo o final daquela carta escrita por Lucas. "Talvez o bem que você queira para mim não seja o bem que necessito." Este fora o final daquela carta e de anos de relacionamento. Manuela pensava onde fora o momento que perdera o seu grande amor. Esta era a única resposta que queria. Não queria saber o porquê, mas sim onde. Sempre amará aquele homem. Desde o início este fora o amor de uma vida e estava terminado. Onde começou a perder este amor?
     Manuela andava sem direção. Pensava sem conclusão. Tinha que tentar descobrir. Mas como? Lucas largou tudo e sumiu. Nem o telefone atendia. Ela continuava a andar sem rumo. Pensava em colocar fogo naquela carta e esquecer aquele final. Mas não conseguia. Simplesmente não conseguia, por mais que tentasse. Mas o que ele queria dizer, eu sempre quis o bem para ele e para nós. Sempre lutei por aquele amor que sentíamos. Por isso não entendo o porquê de terminar um relacionamento tão intenso com uma carta, sem o olho no olho. Que falta de respeito. Que deselegante como disse certa apresentadora de televisão. Deu uma pequena e discreta risada. Continuou a caminhar sem rumo.
     Os anos passaram. E a desilusão foi esquecida. Esquecida não é o termo correto, talvez tenha sido guardada em algum escaninho na cabeça daquela mulher. Mas a verdade é que as duras palavras escritas por Lucas não saiam dos pensamentos de Manuela "Talvez o bem que você queira para mim não seja o bem que necessito".
     A vida seguia como tinha que seguir, amores, separações, mais amores e mais separações, enfim, era uma vida como outra qualquer. Então, sem porque reencontrou Lucas. Ele continuava o mesmo, não mudara nada, talvez alguns cabelos brancos, mas no essencial continuava o mesmo homem que conhecera fazia mais de 20 anos. Um encontro inesperado em um supermercado qualquer, numa fila qualquer de caixa. Ela com um carrinho repleto de compras e ele com meia dúzia de produtos.
     - Oi! Com certeza nos conhecemos. Ou melhor, talvez nos conhecêssemos, mas isso faz muito tempo quem sabe uns 20 anos. Com essas palavras Manuela começou aquela conversar que deveria ter sido travada há muito tempo atrás.
     - Claro que nos conhecemos. Manuela, nunca te esqueci. Se me permite, tenho que te dizer que te amo.
     - Como assim? Ama? Deixa de loucura Lucas.
     - Simples, nestes vinte anos não teve um dia que eu não pensasse em ti. Nem um único dia. O meu amor continua latente em meu coração
     Manuela estava completamente sem chão. Por um momento se viu envolta por pensamentos... Me ama, mas terminou nossa história com uma carta e nunca mais me procurou. Como entender um homem tão instável emocionalmente? Não posso perder a chance de perguntar o porquê daquela frase numa carta de despedida...
     - Lucas! Hoje tu dirá o que significou a carta de despedida. E, principalmente, aquela frase final. Por favor. Me explique.
     - Manu! É simples. Na vida, por vezes, os desejos de outras pessoas não são nossos desejos. Por vezes temos que procurar nossas verdades, nossos sonhos, ou melhor, temos que sonhar nossos sonhos e não os sonhos de outra pessoa. Por mais doloroso que possa parecer, a verdade é que o teu sonho não era o meu sonho. Por isso sai da tua vida. Mas ao mesmo tempo continuei a te amar e te amo até hoje... Eu só não queria viver a vida que tu queria para mim.
     - Lucas. Primeiramente, eu não tinha sonhos, nós tínhamos sonhos. Sempre pensei assim.
     - Não é a verdade completa. Tu vivia falando em casamento, comprar casa, viver um vida estável. Este era o teu sonho não o meu. Eu queria ter a vida que tenho. Totalmente sem compromisso, ser um artista. Viver da minha arte e numa corda bamba, mas tendo o controle total da situação e não ser controlado por este sistema. Olha para ti Manu, ou melhor, Doutora Manuela. Agora tu é Juíza de Direito e decide o futuro de todos e de tudo.
     - Não é bem assim.
     - Claro que é. Acompanho a tua vida pelos jornais. É juíza linha dura, todos os jornais te definem assim. Vive com escolta policial, até estou estranhando que não chegou nenhum segurança.
     - Os dispensei hoje, é muito ruim viver com seguranças 24 horas por dia. Na verdade sou apenas uma mulher com uma missão. E vou cumpri-la até o fim. Apenas isso.
     - Mas estávamos falando sobre como terminamos nossa história.
     - Terminamos não. Foi tu que terminou. Tu escreveu aquela carta que até hoje guardo e nunca mais me procurou. Mas agora começo, finalmente, a te entender. Tu era imaturo demais para admitir que amava. Tu não conseguia entender que poderia ser feliz com alguém, não se sentia capaz de amar. Não entrava na tua cabeça que alguém poderia te amar.
     - Nada disso. Eu apenas não queria aquilo que tu queria para mim. A vida era minha e de mais ninguém. Tu queria mudar tudo em mim. E isso eu não queria. Como ainda não quero. Sempre fui assim e sentia que se continuasse contigo eu não teria mais a minha vida. Teria a tua vida...
     - É talvez tu tenha razão. Eu queria que tu fosse alguém.
     - E o que é ser alguém?
     - Um homem de verdade com responsabilidades, pai de família.
     - O que tu queria é que eu entrasse nesta roda vida, carnê de carro, prestação de casa própria, viagens, filhos, casa na praia, enfim, uma vida de classe média. Esta vida não é para mim. Só isso. Não me incluo em padrões definidos. Nunca quis ser rotulado, quero ser apenas eu.
     - Lucas, olha para ti. O que tu tem hoje? Está contando o dinheiro para comprar meia dúzia de coisas. Não tenho preconceito, mas eu esperava muito mais de ti. Aliás, todos que te conheciam esperavam mais de ti...
     - Manuela, ou melhor, Doutora Manuela, eu tenho o bem maior que com certeza tu não tem. Se eu me encher desta cidade, pego as minhas coisas e vou para outro lugar, se me encher deste país, simplesmente procuro um outro que me traga o que necessito naquele momento. Tenho o bem maior que é a liberdade. Esse bem o teu dinheiro não compra. Dinheiro nenhum compra. A liberdade não está a venda.
     - Que papo de adolescente. Tu não cresceu, Lucas.
     - Talvez sim, talvez não. Mas foi a vida que escolhi para mim ou como te escrevi lá trás, foi o bem que eu escolhi e não o bem que outros escolheram. Manuela, acho que está na sua hora, o marido lá trás com cara de poucos amigos está te olhando com reprovação. Vai viver a vida que tu escolheu para ti...
     Neste momento Lucas sai da fila do caixa e se dirige ao cara impaciente e diz:
     - Não se preocupa, esta não é a minha vida. Ou melhor, se preocupe, pois esta é a sua vida...

Trilha sonora
Aqualung - Jehro Tull - Rock 70´s
I Want To Know What Love Is Foreigner - Rolling Stone Magazine's 500 Greatest Songs Of All Time
In The Morning - Norah Jones - Feels Like Home
Letter From Home - Pat Metheny Group - Letter From Home
Mean Old Frisco - Eric Clapton - Crossroads 2: Live In The Seventies
Metro Linha 743 - Raul Seixas - Millenium
Politik (Live In Rotterdam Nov.5 2002) - Coldplay - Singles
The Same Old Sun - The Alan Parsons Project - The Ultimate Collection (Disc 2)
Star - Muse - Arcana
Tears In Heaven - Eric Clapton - Rolling Stone Magazine's 500 Greatest Songs Of All Time
Tom Petty - American Girl - Rock 70´s
Unintended - Muse - Showbiz
You Got Me Rocking - The Rolling Stones - Voodoo Lounge

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