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Uma madrugada

     Agora, acho que chegamos ao fim dos encontros e desencontros de Renato e Mariela. Só tenho a agradecer Julia Nin pelos deliciosos contos. Julia não irei mais te adjetivar. Aliás, como aprendi contigo, os adjetivos devem ser usados com parcimônia. Valeu Julia e quando quiser contribua novamente com o LedVenture. Entretanto, não tomarei mais nenhuma dose contigo, és mais resistente do que eu ao álcool. Nosso mais recente encontro provou isso. Só para os mais desavisados este conto de hoje é a continuação de: Uma noiteUma manhã e Uma tarde.

Por Julia Nin

      Mariela andava de um lado para o outro daquele provador, não sabia se ria ou se pegava aquelas camisas e as desabotoava, todas, sem exceção. Começou a rir convulsivamente. Sem pensar, abriu a porta e ainda sorrindo ficou a olhar Renato que fumava ao fim do corredor do estúdio.
     Apenas um corredor escuro separavam aquelas duas pessoas. Mariela lembrando da noite passada, quando queria apenas brincar com mais um desconhecido. Renato pensando em como se envolvera com aquela mulher. Em menos de 24 horas sentia uma certa dependência de Mariela. Como seria possível?
     A fumaça do cigarro de Renato começava a se acumular naquele corredor. Escondendo, aos poucos, os avisos de proibido fumar.
     Nenhum som era perceptível por aquelas duas pessoas, muito embora no estúdio ao lado estivessem sendo produzidas as fotos da campanha da Cocodrilos. Como as vidas destas duas pessoas tinham sido alteradas de ontem para hoje. E tudo se originara de uma brincadeira com botões. Mariela apesar dos inúmeros amigos era uma solitária. De uns anos para cá começava a sentir o peso da solidão, queria compartilhar sentimentos com alguém. Ele um publicitário sem inspiração que ia levando a vida sem muitas perspectivas de mudanças. Renato acende um cigarro atrás do outro, o estúdio ao lado começa a se esvaziar, as luzes, aos poucos, são apagadas. O silêncio vai chegando por todos os lados. Já são quase duas da manhã. A fumaça vai envolvendo o corredor. Um clima nonsense se espalha. Do nada os Sprinkler são acionados, retirando os dois daquele mundo de pensamentos.
     - Renato, tu não viu os avisos de proibido fumar aqui?
     - Vi, mas precisava muito fumar. Precisava de tanta coisa... Preciso de tanta coisa.
     - Temos que sair daqui. E logo, estamos ficando molhados
     - Mas tu desabotou os botões das camisas lá do provador?
     - Renato, a brincadeira acabou. Agora a única camisa que me importa é a tua. Tenha certeza que irei arrancar todos os botões...
     Os dois finalmente se beijam. Um beijo sem jeito, que de tão desejado já estava entre eles. Os dois sentiam que a vida conspirava a favor deste beijo. Tudo levou e levava a este momento e não poderia ser melhor. Mas era engraçado, apesar de desejado, os dois sentiam que não poderia ter ocorrido antes. Aquele era o momento de suas vidas. Um dia inteiro transcorrera, duas noites servia como uma ligação deste dia. Tudo aconteceu entre eles e ao mesmo tempo nada tinha acontecido. Mas agora só  importava o beijo que não  terminara, o gosto daquele beijo, o sentimento daquele beijo, a necessidade daquele beijo, enfim, tudo que aquele simples beijo representava aos dois.
     Ao sairem do prédio, ouvem as primeiras sirenes dos bombeiros. Os dois caminham como se não tivessem destino. Mas o destino os dois sabiam bem qual seria. Na bolsa de Mariela um punhado de botões, na cabeça de Renato apenas uma frase: "Love is a losing game".

Trilha sonora
Love is a losing game - Amy Winehouse - Back to black

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