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Um amor covarde

     Ao longe dois homens conversam. Parecem cansados da vida.
     Apenas conversam, a espera de algo há muito tempo perdido.
     - Você já teve impressão de ter deixado o amor passar pela sua vida?
     - Sim. E na única vez que ele passou por mim eu virei as costas.
     - Por quê?
     - Até hoje não sei o porquê. Aliás, nunca soube. Desde o primeiro dia me arrependo da decisão tomada. E tu Antonio, já deixou o amor passar pela tua vida?
     - Para te falar a verdade amei uma única vez. Tenho quase setenta anos e amei apenas a minha esposa. João, é triste descobrir que ao chegar aos setenta só amei uma vez.
     - Pois eu não sei o que é mais triste. Amar uma única vez ou amar como nunca e deixar este amor fugir. Hoje ao olhar para trás me sinto um perdedor. Perdi o grande amor da minha vida por medo do desconhecido, por medo de viver a vida. E nunca entendi.
     Aos poucos aquele senhor encurvado pelos anos começa a chorar, um choro contido e ao mesmo tempo descontrolado pelos anos de sofrimento.
     - João, se não for muito dolorido, tu poderia contar como foi que aconteceu? Mas não conte se for te fazer sofrer.
     - Sofrido é, aliás, sofro por uma vida inteira, mas tenho que falar, preciso desabafar, por anos sofro esta perda. Por anos convivo com esta dor. Antonio, o meu grande amor eu conheci no colégio. Éramos adolescentes e colegas de sala de aula. Era o último ano do colégio, todos sonhavam com a vida que iriam levar, fazíamos planos a respeito dos anos que estavam por vir. Dolores, este era o nome dela, era uma espécie de confidente. Não havia dia que não falávamos algo muito pessoal sobre nós. Eu a conhecia como a palma da minha mão e ela também me conhecia do avesso. Bastava nos vermos pela manhã para saber como tinha sido o jantar em família na noite anterior. Um olhar bastava. Dolores ficava a cada ano mais bonita. Naquele último ano de escola ela era a mais linda, cabelos longos e prateados. Eu não sabia, mas a amava desde sempre. Num dia especial nos envolvemos corporalmente. Antonio, estou falando dos anos 1950 e tu sabe como eram as coisas. Para haver algum envolvimento só casando. Mas com Dolores ultrapassamos todas as barreiras, avançamos todos os sinais...
     - Tu quer dizer que vocês "ficaram" como diz meu neto?
     - Antonio, não sei direito como definir este tal de ficar. O que quero dizer é que fiz amor com a Dolores. Nunca senti o que senti naquela noite. Lembro de tudo, lembro dos cheiros, das cores, do gosto do suor, da intensidade da respiração, do gozo mais intenso que alguém pode sentir. Lembro do choro convulsivo nosso. Lembro dos nossos sorrisos, do choro misturado com riso. Foi a melhor noite que eu vivi na minha vida. Mas eu já era um merda naquela época. Naquela época eu tinha os mesmos medos que ainda trago comigo até hoje. No dia seguinte quando encontrei a Dolores no colégio ela veio me abraçar dizendo que me amava. Antonio tu sabe o que eu disse para ela?
     - Imagino, João. "Dolores, te amo para o resto da minha vida" ou algo do gênero.
     - Antonio, esta frase meu coração gritava para eu dizer, mas as palavras que eu proferi para a Dolores ainda me perfuram a alma. E isso que já se passaram mais de cinquenta anos. Eu disse a seguinte frase, palavra por palavra, nesta entonação: "Dolores, não se envolva comigo, pois o que eu queria eu já consegui de ti. Ontem, naquela cama, foi uma noite como qualquer outra. Só queria dormir contigo e nada mais. Fui claro? Não quero nada mais do que aquela noite." E virei as costas e nunca mais falei ou encontrei a Dolores. Até hoje me pergunto porque disse aquela frase. Até hoje me arrependo daquelas palavras. Desde aquela noite dormi com muitas mulheres, mas nunca senti o que senti com a Dolores.
     - João, por que tu disse aquelas palavras? Pelo que entendi, tu amava a Dolores.
     - Antonio. Não sei te dizer o porquê. Nestes anos todos, não teve um dia que não me fiz esta pergunta. Sofro sem respostas. Mas estes anos me mostraram que talvez eu tenha amado demais. Talvez este amor me assustasse e eu não tivesse a capacidade de entender o que era aquele amor. Talvez eu quisesse muito aquele amor, mas achava que não o merecia. Que não pudesse viver o verdadeiro amor. Por isso nestes anos todos eu a cada noite e a cada nova experiência amorosa eu fantasiasse o único e verdadeiro amor de uma vida.
     Neste momento João se levanta e se despede de Antônio. Ao ver João caminhando e sofrendo o peso dos anos, Antonio ouve uma voz ao fundo:
     - Antonio, quem era aquele senhor? Tenho a impressão que o conheço...
     - Apenas um conhecido. Dolores, não me pergunta mais nada, apenas me dá um beijo...
Trilha Sonora:
Noite dos Mascarados - Coletânea - Chico Buarque
Quem te viu, quem te vê - Coletânea - Chico Buarque
A Rita - Coletânea - Chico Buarque
João e Maria - Coletânea - Chico Buarque
O meu amor - Coletânea - Chico Buarque
Olhos nos olhos - Coletânea - Chico Buarque
Dueto - Coletânea - Chico Buarque
Folhetim - Coletânea - Chico Buarque
O que será (à flor da pele) - Coletânea - Chico Buarque
Desalento - Coletânea - Chico Buarque
Bárbara - Coletânea - Chico Buarque
Você não entende nada/Cotidiano - Coletânea - Chico Buarque
Atrás da porta - Coletânea - Chico Buarque
Morena dos olhos d´água - Coletânea - Chico Buarque
Olê, olá - Coletânea - Chico Buarque
A banda - Coletânea - Chico Buarque
Apesar de você - Coletânea - Chico Buarque
Tatuagem - Coletânea - Chico Buarque
Se eu soubesse - Coletânea - Chico Buarque

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