15 de outubro de 2014

Ocaso!

    Faz muito tempo que não entro aqui para escrever. Aliás, faz muito tempo que não acesso o blog. Ele está em um processo de hibernação. Quase uma vida mantida por aparelhos.
    O motivo? Talvez o ocaso do LedVenture esteja próximo.Gosto da palavra ocaso. Me faz pensar em um caso qualquer, uma história qualquer que será contada. É o tipo de palavra que o som te carrega a muitos lugares e situações. Mas voltado desta pequena digressão, o LedVenture sempre foi um personagem vivido por este blogueiro neófito. Um personagem que por breves momentos adquiriu vida própria. Um personagem que ultrapassou os limites da ficção e viveu algumas experiências muito interessantes. Outras nem tanto.
     Cruzam ambulâncias aqui perto, correndo não sei para onde, talvez para acudir este blogueiro, talvez não... As ambulâncias passaram e a vida volta ao normal por aqui, não me acudiram. Parece que não foram chamadas para me atender.  Na verdade não preciso mais seguir como LedVenture,  na realidade não preciso mais escrever, não corro o risco de enlouquecer. Percebi que a loucura sempre será bem recebida por mim. Uma loucura responsável, se é que é possível ser responsável e louco. Nunca fui muito louco nem muito responsável. Sou igual a muitos que vivem a vida de todos os dias. Todos vivemos esta vida que nos é imposta por tudo e todos que insistem em nos cercar. Temos pouco ou quase nenhum arbítrio.
     Alguns mais apressados podem gritar e dizer que possuímos  a liberdade de fazer o que desejarmos de nossas vidas. Será? Será mesmo que podemos controlar as rédeas desde bicho? Eu acredito que não. Basta começarmos a viver e ter uma certa responsabilidade que na mesma hora perderemos o controle. No primeiro financiamento assinado (quem não os tem?), na primeira folha da CTPS assinada, no primeiro carnê com mais de 12 prestações ou no primeiro casamento abrimos mão do controle de nossos destinos. Vivemos como se estivéssemos em um ônibus onde não sabemos quem decide para onde ir (talvez o motorista), onde parar, que velocidade andar, se as janelas podem ser abertas ou não. Parece que todos decidem por nós.
     Chega um momento que cansamos daquele ônibus, trocamos por uma bicicleta (bike estou evitando nestes últimos tempos), carro, moto ou avião, mas nada muda. Continuamos não decidindo sobre nossos destinos. E é assim mesmo. A vida nos leva, temos, por vezes a ilusão que possuímos o direito e o poder de mudamos nossas vidas. Doce ilusão. Podemos até mudar radicalmente a nossas vidas. Trocarmos a segurança de um emprego (seja a tão sonhada CTPS assinada ou a segurança enfadonha de uma repartição pública) por uma vida à beira-mar, talvez cuidado de um quiosque. Os anos passam e quando nos damos conta estamos querendo ampliar o negócio, expandir os lucros, abrir um outro quiosque na praia ao lado. E de uma hora para outra nos vemos rodeados de carnês, funcionários, sócios, gerentes de bancos, enfim, tudo que tentamos fugir quando "mudamos" de vida.
     Na verdade não há escapatória. Ou vivemos a vida que nos impõem ou simplesmente não vivemos. Claro que existem casos de pessoas que conseguiram deixar de lado esta vida de todos os dias. Quem consegue deixar de lado esta vida imposta por não sei o que ou quem são as respeitáveis exceções. Como exceções, somente confirmam a regra.
     Fazia tempo que não escrevia no blog, fazia tempo que não parava para pensar em tudo que está a minha volta. Questionar a vida imposta coloca em perigo o equilíbrio tênue de todos os dias e passamos a caminhar em uma espécie de corda bamba, e ao olharmos para baixo tudo perde sentido. Sofremos as consequências deste pensar. Quem não quer sofrer qualquer riscos que volte para o colo da mamãe e fique somente assistindo o programa do momento, consultando sua Timeline ou quem sabe curtindo a fotinho do Instagram.
     Se quiser pensar, aguente os risco.


PS: Sempre escrevo sobre as mesmas coisas. Estes dias ouvi uma entrevista de um escritor que disse mais ou menos o seguinte "escrevo o mesmo livro nos últimos 40 anos". Eu não sou nenhum escritor mas sinto que escrevo sempre sobre o mesmo assunto. Talvez seja o momento de mudar. Ainda bem que só eu leio o que é escrito aqui. Ainda bem.


Trilha sonora:

Hoje não escrevi com música, o ambiente não permitia.
Mas se tivesse uma trilha com certeza teria Santa Maria (Del Buen Ayre)

8 de abril de 2014

Noite

     Otávio mora há mais de 10 anos no mesmo apartamento. Conhece do avesso aquele lugar. Dia após dia entra pela mesma porta. Dá exatamente duas voltas na fechadura. Encontra o mesmo quadro quando abre a porta. Coloca a chave na mesma mesa. Dá uma olhada nas contas e senta na mesma cadeira da sacada para fumar um cigarro sem gosto. Sempre do mesmo jeito. Sempre no mesmo horário. A cada início de noite a solidão mexe com sua cabeça. A fumaça o envolve de uma forma  tal que tudo a sua volta desaparece. O ritual é mesmo noite após noite.

    Naquela noite a vizinha está sentada na sacada ao lado. A luz está apagada e ela divaga sobre o dia que passou. Espera do vizinho metódico. Naquele dia nada que lhe cercava dera certo. Mais uma vez. Só lhe restava espiar a rotina de sempre do vizinho sem nome enquanto espera o seu banho relaxante. Na hora de sempre ele chegou ao seu apartamento. Ouve ele fechando a porta, dá exatamente duas voltas na fechadura da porta. Como aquele cara era previsível. Em no máximo dois minutos ele estará sentado na varanda e fumara um cigarro. Apenas um. Ficará ali por duas horas. Depois irá sumir e só voltará na noite seguinte. Sempre faz a mesma coisa. Noite após noite. Mas e de dia o que ele faz? O que ele faz para ganhar a vida. Ana pensa na expressão 'ganhar a vida' que frase estranha. Ninguém ganha a vida, sempre perdemos, todos os dias perdemos um pouco da nossa vida. Esta é a dura verdade. Ana começa a divagar sobre a vida do estranho vizinho. Só sabe que ele sai exatamente às oito e quinze da manhã. Ao chavear a porta dá apenas uma volta na fechadura. Mas para onde ele vai? Ana continua a olhar ele pela sacada. São vizinhos e nunca deram nem bom dia. Muito menos boa noite. Quando sai de manhã às vezes vai pela escada, em algumas manhã sai pela garagem (estranho ele não tem carro), sai caminhando pela garagem. Isso que tem um aviso no elevador que é proibido sair pela garagem sem ser de carro. Ana sempre estranhou aquele aviso. Mas nunca questionou o síndico. Aliás nem sabe que é o síndico. Os avisos são estranhamente assinados como "Direção". Ela nunca foi a uma reunião de condomínio até porque está atrasada com os pagamentos.

     Quando Otávio sentou na sua cadeira percebeu que a vizinha estava na outra sacada. Não se importou. Apenas queria fumar o seu cigarro. Como faz dia todos os dias. Hoje subiu do térreo ao décimo andar pelas escadas. Lembrou que deveria falar com o síndico, pois as luzes da escada não estavam funcionando. Uma escuridão. Lembrou que não sabia quem era o síndico. Apenas sabia que quem assinava os avisos do prédio era a "Direção". Que coisa impessoal. Será que era síndico ou síndica. A vizinha do lado poderia ser a síndica. Se bem que ela não tinha cara de síndica. Embora, pudesse ser. Ouvira uma conversas furtivas no elevador insinuando que ela atrasava o pagamento do condomínio. Definitivamente ela não era síndica. Eles geralmente não pagam condomínio, portanto, não poderiam atrasar algo que não têm obrigação. De canto de olho espiou a sacada do lado, ela continuava lá, no escuro como ele. Por que não estava fumando? Tinha uma fumaça lá, mas era incenso. Achava que a vizinha do lado era meio mística. Em cima da sua porta tinha uma cabala. Ouvia nos sábados de manhã sons que pareciam mantras e tinha o tal do incenso. Decidiu procurar na internet algo sobre a vizinha, quem sabe nas redes sociais. Otávio se deu conta que não tinha conta em nenhuma rede social e não sabia nem o primeiro nome da vizinha. Aliás, não sabia o nome de ninguém do prédio. Deu um breve e quase imperceptível sorriso. A fumaça à sua volta o levara a divagações sem muito sentido.

     Ana continuava sentada olhando a sacada do vizinho. Percebeu um pequeno sorriso. Um disfarçado sorriso. Será que o vizinho estranho tinha percebido ela? Será que aquele furtivo sorriso era uma espécie de mensagem oculta? Ou apenas foi um sorriso por ter lembrado de alguma piada que lhe contaram no seu trabalho. Mas qual seria o trabalho dele? Decidiu que no outro dia iria segui-lo, iria descobrir em que aquele cara tão introspectivo trabalhava. Foi dormir. Mas antes iria tomar banho.

      Otávio ao sair da sacada ficou sentado no sofá da sala. Gostava de escutar os sons do prédio. Os vizinhos cozinhando, brigando, a tv no último volume. Gritos em dias de jogo. A vizinha do lado parecia ser solitária como ele. Nunca ouvira conversas, ou melhor, muito raramente ouvia conversas vindo do apartamento do lado. Outros sons eram comuns ouvir. Sabia que ela demorava muito no banho. A água do chuveiro ficava muito tempo acionada. Lembra que precisa falar com o síndico sobre o excesso de água que todos pagam. Tem certeza que uma das responsáveis é a vizinha do lado. Já cronometrou e uma noite deu mais de uma hora e meia. Mas reclamar com quem? Com a "Direção"? Decidiu que irá se informar quem é o síndico. Mas no mesmo momento desistiu, passados dez anos iria ficar estranho ele procurar o síndico para reclamar do consumo de água. Muito estranho. Os sons ao redor continuavam a mexer com o seu imaginário. O que estariam cozinhando? Como seria o corpo da vizinha que toma banho demorado? Pelo menos sabia que o televisor em algum apartamento estava ligado na novela. O país não falava em outra coisa. A tal novela. Será que todos não percebem que novela é mais uma forma de manter todos conformados. Otávio mais uma vez se enche deste papo de controle social da televisão, pareceaté coisa de universitário recém saído da faculdade e que acha que tudo gira em torno de controle de nossas ações ou nossas omissões. Mas será que este não é o resumo de tudo que nos cerca. Otávio enche o saco e vai dormir. Dormir sempre no mesmo horário para amanhã fazer o mesmo de sempre. A vizinha continua tomando banho.

     Ana entra no banheiro. Abre o chuveiro e a água escorre sem destino. Fecha o boxe. Tudo tão automático. Faz parte do seu dia, talvez como o cigarro do vizinho sem nome. Senta no vaso. Olha a seringa laranja,o isqueiro, a água e o derivado daquela planta milagrosa chamada Papaver Somniferum. Tudo no lugar à espera da alquimia mágica. Nestes momentos sempre agradece Charles Romley Alder Wright. Estende o braço, coloca cuidadosamente o torniquete, não o aperta muito. O braço já está aquecido e pronto para a viagem. O coração dispara. Parece que pressente tudo que irá acontecer. Com todo cuidado introduz a fina agulha no braço, dá uma leve puxada no êmbolo, o sangue entra vagarosamente e é o momento de injetar tudo em sua corrente sanguínea. Está começando a viagem, lembra que tem que fechar o chuveiro, tem que fechar o chuveiro, quer fechar o chuveiro... a viagem começa e o chuveiro mais uma vez fica aberto. Por que deixa a água correndo quando vai se picar? Esta é a última lembrança real de tudo que viveu naquela noite. Ana acorda na sala no outro dia, o vizinho do lado acaba de sair, deu uma volta na fechadura. Ana nem olhou no relógio. Era exatamente oito e quinze da manhã. Mais uma vez não fez o que tinha planejado. Não sabe em que trabalha o vizinho. Não sabe nada, apenas que tem que sair para comprar uma nova dose.

                  Continua em algum dia, talvez.

Trilha Sonora:
Intro - xx - The xx
Vcr - xx - The xx
Crystalised - xx - The xx
Islands - xx - The xx
Heart Skipped A Beat - xx - The xx
Fantasy - xx - The xx
Shelter - xx - The xx
Basic Space - xx - The xx
Infinity - xx - The xx
Night Time - xx - The xx
Stars - xx - The xx

29 de março de 2014

Hoje e não ontem

     Nunca entendi a pressa do mundo. Tudo é para ontem. Parece que estamos sempre atrasados. Mas atrasados para fazer o quê? O que deveria ser feito e não foi? A velocidade da vida sempre é tão acelerada, tão desesperada para passar. Todas estas perguntas estavam ao meu redor, me pressionando de uma forma ou outra.
     Nos últimos meses passei a viver num ritmo bastante lento, a pressa cedeu passagem à calmaria, à reflexão, me dedico de corpo e alma ao dolce far niente. O que passamos por vezes se reveste de falta de significado, parece sem sentido. A vida apressada que levamos não permite que nos aprofundemos na busca do sentido de tudo que vivemos. 
     Quando somos forçados a refletir, seja por qual motivo for, talvez a morte de alguém querido, a passagem por uma situação limite, a perda de um grande amor, enfim, os motivos são infindáveis para darmos um tempo a esta vida louca que nos impõem desde que nascemos. Quando o momento da parada chega nos deparamos com um outro mundo. Muito diferente daquele que aprendemos a não questionar. O tempo apressado da vida cede lugar. O que era para ontem pode muito bem ser feito hoje, o que é hoje pode ser feito amanhã. A obrigação de amanhã não nos impõe anseios hoje. Como é fácil viver uma vida mais calma. Entretanto tudo que está a nossa volta pulsa na velocidade de sempre. Não para, não descansa. Acontece que eu estou mais lento. Aprecio tudo que está tudo e todos que me cercam. Parece que comecei de novo.
     Começar de novo não é fácil, ou melhor, não é fácil deixar para trás tudo que fui. Sou pressionado a todo momento para ser quem eu sempre fui. Mas lá dentro de mim noto um novo eu, percebo que sou diferente, não importando o porquê. Sou diferente e ponto final. Não é ponto final, mas sim uma singela e importante vírgula. A vida pulsa diferente, pulsa intensamente mas de forma compassada, sem saltos.
     Estes dias estava observando o Che Guevara (o cachorro que invadiu a minha vida de forma avassaladora, mas que foi "roubado" pela minha mãe. Aliás, o Che fez um bem para ela que nenhum outro ser fez) senti um amor intenso por ele. Ninguém acredita que ele é cego, ou melhor, deficiente visual. Eu estava com uma grande dificuldade para caminhar devido a um acidente de bicicleta. Eu olhava ele com sua pseudo incapacidade andando normalmente, às vezes esbarrando em alguma cadeira ou outro móvel fora do lugar, mas sempre indo não importando o quão forte fosse o baque. Ele apenas seguia em frente. Ele me "olhava" e dizia: velho não desiste, não há limite para nós. O pior passou. Eu  o colocava no meu colo e ficava fazendo carinho nele. E ele? Apenas me mostrava o caminho a seguir. A cada dia eu melhorava mais. E ele continuava a me dizer: Viu é difícil, mas é possível. A cada trombada dele eu queria me levantar e o conduzir. Ele apenas ia em frente. Por vezes me "olhava" e dizia com seus lindos olhos: Velho, aprendi a lidar com esta minha limitação, aprendi a seguir em frente não importando quantas trombadas ocorram. Apenas sigo. Não tenho outra opção e gosto de viver assim.
     A medida que meu corpo ia melhorando eu apenas agradecia aquele cachorro ser tão especial. Cada momento que passo com ele é uma alegria sem tamanho. Daqui uns dias estarei com ele e ficaremos juntos apreciando a vida e este dolce far niente que aprendemos juntos a desfrutar. Mais uma vez obrigado Che Guevara, o cachorro que mais enxerga no mundo.

PS: É muito difícil escolher uma foto do Che Guevara, pois ele é muito fotogênico...

Trilha Sonora:
Freight Loader - Eric Clapton - Guitar Boogie
Sympaty for the Devil - The Rolling Stones - The Best Of
String Serenade in E major. Op 22 - Dvorak - 101 Classical Greats
Lazy Calm - Cocteau Twins - Stars & Topsoil - A Collection (1982-1990)
Clarinet Concerto In A Major K622 (Adagio) - Mozart 101 Classical Greats
Otto, Rica Amabis & Luca Raele / Peugeot - OTTO - Changez Tout - Samba pra Burro Dissecado
Sorria, Você Está Sendo Filmado - Pato Fu - Ruído Rosa
Exu parade - OTTO - The Moon 1111
City of Angels - Gabriel Yared - City Of Angels

31 de dezembro de 2013

"Como fazer sexo"

     O Google a cada ano nos revela as trends, em nosso amado português podemos traduzi-lo como tendências. Ou no português mais nosso ainda são os termos mais pesquisados no ano. É interessante dar uma olhada para vermos como somos fúteis. No Brasil para se ter uma ideia o termo mais pesquisado foi o BBB13. Estamos reduzidos a quase nada. Ou um nada completo.
     Mas o que mais me chamou a atenção foi um o tal tópico de "Como fazer". São todas as pesquisas com tem como intenção descobrir como fazer determinada coisa e pasmem está em quarto lugar a pesquisa "como fazer sexo". Não acreditam, então acessem o link: Trends: Como fazer sexo. Fico imaginando a pessoa "googleando" antes daquela noite (manhã ou tarde) de sexo. "Já sei como fazer, mas quero dar uma recordada, hoje promete e não quero decepcionar". É o fim da várzea.
      Eu sei que o google faz parte da nossa vida, não nos vemos sem esta ferramenta dos tempos modernos, mas pesquisar como fazer sexo é a subversão de tudo que somos desde os tempos do Adão e Eva (se é que existiram estas figuras). Entre os termos relacionados ao como fazer sexo aparecem "como fazer sexo oral" (olha, me parece tão fácil), "como fazer sexo anal" (não creio que alguém pesquise este fazer, o nome diz tudo). Mas têm os mais românticos (eles sempre estão entre nós), a pesquisa deste grupo é "como fazer amor" (que fofos, aí acho que precisamos fazer esta pesquisa, aliás vou googlear e ver o que aparece: "Como fazer amor". Não me esclareceu muito, aliás, fiquei em dúvida, muitas dúvidas. Em um dos resultados aparece: Como fazer amor com um negro sem cansar (agora meu mundo despencou de vez, fazer amor com negro cansa mais? Não sei mais nada), não sou um cara muito romântico, nem fofo o bastante para entender esta lance de fazer amor.
      Na verdade cada vez entendo menos este mundo que me cerca. Me lembro das vezes que tinha dúvidas em relação ao tema como fazer sexo, tinha um 12 anos. Resolvi as dúvidas do jeito que desde o tempo dos nossos mais antigos ancestrais fizeram. Método infalível, tentativa e erro.
     E mais não existem casais iguais, não existe uma fórmula mágica, cada pessoa com as quais nos relacionamos tem um jeito diferente, uma "pegada" diferente. Não existem procedimentos padrões, toques certeiros, ainda bem que é assim, senão até o sexo seria massante e enjoativo... Aprendemos a conhecer quem está em nossa cama, cadeira, carros, onde quer que seja... Não precisamos pesquisar no Deus Google em como fazer algo que nascemos sabendo. É atávico a todos nós. Pelo menos assim eu pensava que era.
     Vamos deixar de lado a pesquisa a vamos simplesmente continuar fazendo sexo, trepando, fazendo amor, não importa as lições do google, apenas continuemos a fazer o que nos dá prazer... Ah, não podia deixar de desejar um Feliz 2014 com muito sexo e felicidade!

PS: Depois de um final de 2013 em recuperação, não no colégio, mas sim na saúde, começo 2014 com os sistemas mais alertas e dispostos. Ainda um tanto lentos e com algumas linhas de comando incompletos. Com o tempo todos os sistemas estarão novamente pulsando. Me sinto cada vez melhor. Obrigado a todos que de uma forma ou outra ajudaram e ajudam nesta recuperação. A todos e todas muito obrigado, do fundo do coração.

Trilha Sonora: 
Exu parade - The Moon 1111 - Otto
Get Lucky - Random Access Memories - Daft Punk
aiting On A Friend - The Rolling Stones - Clássicos Rock 500
Romeo & Juliet - Emerson, Lake & Palmer - Live At The Royal Albert Hall
Blinded By Rainbows - The Rolling Stones - Voodoo Lounge

18 de novembro de 2013

O homem nu

     O mundo muda a cada instante, todos mudamos nestes mesmos instantes. O blogueiro neófito mudou. Por quê? Não sei bem, mas no dia dois de novembro, comecei de novo. Acho que dei uma "resetada" no sistema e estou funcionando, neste momento, no modo segurança. Meus sistemas estão tentando voltar ao normal.
      Este blog não é um diário onde exponho meu eu, mas sim um lugar onde exponho o que penso e é fruto de uma necessidade de expressar, muitas vezes, sentimentos sem muito sentido... Não entrarei em detalhes sobre o motivo da "resetada". Mas o mais interessante que não vi nenhuma luz, minha vida não passou diante dos meus olhos, somente sentia dor e num dado momento tive a percepção que era sério e que deveria me manter calmo.
      A vida é assim aprendemos da forma mais dura. Seguimos sempre as mesmas estradas, os mesmos caminhos, cometemos os mesmos erros, amamos as mesmas pessoas, algumas vezes amamos outras, voltamos a amar quem sempre amamos... A vida é uma eterna repetição. Mas chega momentos que mudamos por vontade própria ou obrigados por acontecimentos da vida.
     O mundo continua a girar e eu, neste momento, sou apenas um passageiro deste mundo. Não tenho controle de quase nada. Estou trancando dentro de casa me recuperando, pensando neste novo Ledventure que está surgindo. Sou outro sendo o mesmo, sou o mesmo sendo outro. Olho a vida de forma diferente, me vejo de forma diferente. Sou diferente. Não sou melhor ou pior, apenas diferente. Mas a vida lá fora pulsa como nunca, alguns estão sendo presos, outros pegos com a mão na botija (os mesmos de sempre, parece que não aprendem), mas a maioria vive suas vidas.
     A minha vida agora está um pouco mais calma, eu estou mais calmo, não vivo aquela ânsia por não sei o que, apenas me cuido. Este post não tem o mínimo sentido, mas é parte de uma retomada, da minha retomada. Aos poucos começo a entender o que se passa comigo e o que se passa ao meu redor.
     Ontem tive um sonho, andava nu na beira da praia, não me importava com o que os outros pensavam, apenas andava nu. Sentia uma paz interior plena. Não pensava no nu, entendia que estava nu e não compreendia porque todos estavam vestidos. Eu me sentia livre de tudo. Num momento me sentei, sujando a bunda de areia, mais uma vez não me importei. Entrei no mar, curti as ondas e voltei a andar...

Trilha Sonora:
Low Life The Police -  Message in a Box
Careful With That Axe Eugene - Pink Floyd - The Pink Floyd Early Singles
Warm Ways - Fleetwood Mac - Fleetwood Mac
Walk Out In The Rain - Eric Clapton - Backless
O Bonde Do Dom - Marisa Monte Universo - Ao Meu Redor
When Love Comes To Town - U2 - The Best Of 1980-1990
Money talks (Rough Mix backing track) - Alan Parsons Projec - The Gaudi
Chains  - The Beatles - Please Please Me
Misty Mountain Hop - Led Zeppelin -Celebration Day
Goodbye Pork Pie Hat-Brush With T - Eric Clapton & Jeff Beck - Two Blue Birds Fly
Paradise steakhouse - Jethro Tull - Nightcap
Tema de amor - Marisa Monte - Memórias, crônicas e declarações de amor


    

3 de outubro de 2013

Seu José

     Eu vejo o mundo passar através de uma porta.
     Meu nome é José, todos me chamam de Seu José. Não sei porque me chamam assim. Mas todos os dias ouço: "Bom dia Seu José", "boa tarde Seu José". Nem sei se este "seu" é com 's' minúsculo ou maiúsculo.
     Sempre respondo com um sorriso, às vezes não digo nada, somente mostro um pouco os dentes.
     Nunca troco mais do que 10 palavras com as pessoas que passam pela porta. Por vezes tenho vontade de conversar mais, mas todos estão com pressa, sempre estão atrasados. Não entendo porque ninguém tem tempo para nada. Minha vida se resume a uma porta aberta, às vezes fechada (quando está muito frio). Passo dias e dias olhando a vida passar e eu sempre em frente a esta porta que mostra tão pouco do mundo. Não posso tirar os olhos da porta.
     Outro dia o pequeno pedaço de mundo que olho ficou pequeno. Não aguentava mais ficar olhando-o e não poder ir adiante. Minhas certezas, todas, absolutamente todas, se perderam diante do inevitável questionamento. Da imensidão que não vejo, que não tenho contato. Por que não saio porta afora? Por que me prendo a esta parte tão ínfima da vida?
     Os dias foram passando e cada vez mais sentia uma necessidade de mudar. Não sabia como.
     Cada novo dia um outro "Bom dia Seu José", "Boa tarde Seu José", a mais nova é "E aí seu José". Nesta última não sei como responder, fico olhando sem muita reação, o máximo que faço é mexer as sobrancelhas. Realmente fico sem ação. Mas a porta continua lá. Cada vez mais me sinto oprimido por aquele pequeno espaço. Não vejo mais como uma simples porta, a sinto como uma espécie de opressor. A porta está sempre aberta, mas para mim é como se fora gradeada, impedindo o meu ir e vir. As pessoas que entram e saem pela porta não têm a consciência da grandiosidade daquele ato. A coragem que exige passar por aquele portal da opressão. Um dia quem sabe eu consiga sair por aquela porta. Neste dia serei um homem livre.
     O mundo pulsa no lado de fora, ultimamente tem pulsando tanto que parece que criou vida própria, sempre tem alguma manifestação passando. E eu o que faço? Fico parado no meu lugar. Não posso deixar de ficar olhando a porta, controlando quem entra ou sai, afinal, esta é minha tarefa nesta sociedade compartimentada. Cada dia passa mais gente lá fora, uns mascarados, outros com faixas de protesto contra tudo e contra todos, nunca é a favor... não seria o momento de eu sair e cruzar esta opressora porta? Será que não é isso que falta para mim, um motivo para deixar de ver a vida passar e fazer parte do que pulsa lá fora? As peguntas vêm e vão, mas eu sempre no meu lugar, olhando o mundo por apenas uma fresta, não vejo nada mais do que uma pequena parte e fico a imaginar como é o resto. Imaginar não é viver, imaginar é apenas imaginar. Tomei uma decisão. Agora é definitivo. Na próxima manifestação irei me juntar a eles.
     Os dias passaram e ninguém mais saiu, todos voltaram à velha e conhecida passividade, inclusive eu. Continuo na minha função cada vez mais atuante. Cada mais conformado. Mas para minha surpresa fui até promovido, sou chefe. Não fico mais em frente à porta, fico na guarita e tenho uma visão maior da rua. Continuo a ser um porteiro, mas vejo um pouco mais. Apenas o suficiente para deixar a vida passar e nada fazer.

Trilha Sonora:
I Shot The Sheriff (13 02 2009) - Welcome to Osaka Castle Hall - Eric Clapton
Layla (13 02 2009) - Welcome to Osaka Castle Hall - Eric Clapton
Cocaine (13 02 2009) - Welcome to Osaka Castle Hall - Eric Clapton
I Shot The Sheriff - Trouble On My Mind-Bremen 20/04/1983 - Eric Clapton
Layla - Trouble On My Mind-Bremen 20/04/1983 - Eric Clapton
Cocaine - Trouble On My Mind-Bremen 20/04/1983 - Eric Clapton

PS: Entre estes dois shows se passaram 26 anos, dois momentos de um gênio da música... não me canso de ouvir estes dois discos e estas músicas em especial.

26 de setembro de 2013

Mais uma vez

     Mais uma vez coloquei no lixo os rascunhos.
     Mais uma vez recomecei.
     Mais uma vez entendi o porquê dos erros.
     Mais uma vez fechei a porta.
     Mais uma vez parei no meio do caminho.
     Mais uma vez e mais uma vez.
     Mais uma vez atravessei as mesmas esquinas.
     Mais uma vez cruzei com as mesmas pessoas.
     Mais uma vez olhei para o lado.
     Mais uma vez desejei estar em outro lugar.
     Mais uma vez me deixei de lado.
     Mais uma vez te deixei de lado.
     Mais uma vez quis te sentir.
     Mais uma vez te olhei acordar.
     Mais uma vez me apaixonei.
     Mais uma vez te amei.
     Mais uma vez você partiu.
     Mais uma vez te vi chegar.
     Mais uma vez te perdi.
     Mais uma vez te conquistei.
     Mais uma vez te beijei pela última vez.
     Mais uma vez te beijei pela primeira vez.
     Mais uma vez te senti distante.
     Mais uma vez.
     Mais uma vez me declarei.
     Mais uma vez chorei.
     Mais uma vez continuei a viver...



Trilha Sonora:
Cocaine - Highclere - Eric Clapton
Layla - Orchestra Night - Eric Clapton
I Shot The Sheriff - Trouble On My Mind-Bremen 20/04/1983 - Eric Clapton

25 de setembro de 2013

Miséria S.A.

     Inúmeras linhas escritas, teorias formuladas, infindáveis ruas cruzadas e incontáveis e indiferenças observadas. O que mexe comigo é a indiferença à miséria.
    Nos encastelamos em bunkers protegidos e vivemos a nossa vida de faz de conta, vivendo o nosso conto de fadas, a nossa história encantada. Por vezes esta história encantada é invadida pela vida real, a dura vida real. Quando isso acontece nos revoltamos, perguntamos onde estão os políticos, questionamos onde está o Estado que não ampara os desvalidos. Gritamos "o que fazem com nossos impostos". Enfim, fingimos uma indignação para expiar uma culpa latente. Passado algum tempo voltamos ao conforto de nossas vidas. Nos trancamos em shoppings, compramos, lutamos para voltarmos ao nosso conto de fadas, mesmo que tudo ao redor esteja desmoronando. A isso chamam de homem civilizado!
     Como entender que mantemos uma estação espacial em órbita, com todos os custos estratosféricos desta empreitada e não conseguimos proporcionar uma vida minimamente decente para todos os habitantes deste planeta?
     Qual é o futuro deste sistema que estamos construindo todos os dias? Onde iremos chegar com estas atitudes? Um mundo onde temos 1 bilhão de miseráveis que sobrevivem com o equivalente a um dólar por dia não pode ter um futuro alentador. Estes dias assisti um documentário onde o Saramago diz mais ou menos assim, o ser humano deu errado (claro que com muito mais talento). Pergunto, como aceitar um sistema que admite um bilhão de pessoas excluídas? Isso sem mencionar as pessoas que tem um pouco mais e que permite apenas uma subsistência. Não é possível vivermos com este "passivo". Aliás, este "passivo" tem nome e sobrenome, são pessoas com sentimentos, tem vida e querem e merecem um a dia a dia melhor. Há teorias econômicas que "explicam" a sociedade que construímos, mas são apenas e tão somente um amontoado de palavras vazias. A vida destes excluídos seres humanos acaba com qualquer explicação econômica.
     É difícil entender a humanidade. Todos nós temos nossa culpa em relação a tudo isso que nos cerca, somos responsáveis pelo mundo que criamos. Mas a esta conclusão é fácil chegar. Entretanto, mudar tudo que nos cerca me parece impossível. Como parece impossível acreditar no ser humano. Ainda bem que Deus não existe para testemunhar tudo que fizemos. Graças a Deus.


Trilha Sonora:
Sem músicas. Hoje escrevi em um ambiente que não permitia ouvir música.
Mas dentro de mim pulsavam várias músicas entre elas A isso Chamam Blues...

1 de setembro de 2013

Rascunhando

    Todos os dias estamos à procura da crônica de nossas vidas. Algo a ser escrito que se prolongue além dos dias. Buscamos o que justifique o acordar diário. Mas o que encontramos? O que se revela a cada acordar? Os dias se repetem, sempre iguais, talvez com algumas discrepâncias, alguns tons diferentes, mas no fundo tudo se repete a cada amanhecer.
     A crônica de encontros e desencontros diários pode ser escrita e reescrita, mas por mais que adjetivarmos ou substantivarmos sempre será mesma história, sempre será a mesma crônica. Um olhar para o mesmo, um escrever sobre o mesmo.
     Imagino quem escreve diariamente e tem a necessidade de produzir um texto por dia que mantenha a  atenção do leitor. Como encontrar um assunto, como prender a atenção do leitor. E quando o texto estiver terminado e enfim publicado, já tem que pensar no próximo e assim dia após dia. Que drama.
     Pensando neste drama me dei conta que o ser humano é muito eficiente em transformar coisas prazerosas nas mais terríveis tarefas. Transformar amores em tristezas. Transformar vida em morte. Somos muito competentes em desvirtuar sentimentos...
     Conseguimos transformar amores em tristezas e grandes amores nas mais intolerantes inimizades. Este é a nossa maior capacidade. Quem sabe é chegado o dia de deixar o amor comandar nossas ações. Ontem ao terminar mais um livro interessante do José Saramago, Claraboia, encontrei uma frase que mexeu comigo. Um diálogo entre dois personagens, Silvestre e Abel:
     Silvestre agarrou-o pelos ombros e sacudiu-o:
     - Abel! Tudo o que não for construído sobre o amor gerará ódio!
     - Tem razão, meu amigo, Mas talvez tenha de ser assim durante muito tempo... O dia em que será possível construir sobre o amor não chegou ainda... José Saramago, Claraboia.
     Talvez o amor ainda não seja o melhor adubo ou talvez não estejamos prontos para ter como indutor de nossas relações o amor. Talvez seja apenas uma digressão sem sentido. Continuarei na minha toada em transformar prazeres em inexoráveis tarefas hercúleas. Nisso sou muito bom.

Trilha Sonora:
Rhiannon - The Dance - Fleetwood Mac
You Make Loving Fun - The Dance - Fleetwood Mac

Sonho

Recebi hoje um e-mail de um amigo virtual. Nos comunicamos por alguns anos somente no mundo virtual, somos uma espécie de produto da "modernidade". Este amigo é um dos leitores deste blog esquecido entre bits. Mas desta vez ele manda uma contribuição para o blog, talvez preocupado com a falta de inspiração deste neófito blogueiro. Gostei Carlos Turma.

Por Carlos Turma.

     Ontem perdi um sonho.
     Mais um entre tantos que sonhei.
     Mesmo não entendo o porquê, aquele sonho me marcava. Nas minhas primeiras lembranças ele estava comigo ou eu estava com ele. Sonhos são companheiros de vida. Por vezes os únicos companheiros.
     Quando percebi o companheiro de tantos anos deixou a minha vida. Mas o interessante é que não ficou nada, desesperança, tristeza, alegria ou qualquer outro sentimento. Simplesmente saiu sem deixar rastro.
     Talvez eu tivesse este sonho somente para continuar minha estrada, como uma muleta para me ajudar a caminhar. Quando não mais precisei, ele simplesmente partiu. Um sonho de criança é talvez o mais simples dos sonhos, não tem relação com riqueza, poder, posição social ou qualquer outro destes sonhos do adulto corrompido pelo sistema.
     A medida que vamos vivendo e "aprendendo com a vida" passamos a assimilar anseios e desejos da sociedade que nos cerca. Deixamos de lado a nossa essência, passamos a crer em coisas que simplesmente desprezávamos. Entramos na roda viva da vida. A partir de algum momento, não sei bem quando, entramos inexoravelmente nesta estrada sem rumo.
     Ao deixar para trás o meu sonho, deixei para trás o eu que tanto procurei preservar. Agora não sou mais eu, sou apenas quem um dia tentou não ser.

Trilha Sonora:
Layla - Trouble On My Mind-Bremen 20/04/1983 - Eric Clapton

PS: Esta versão de Layla é a melhor de todas e tem 30 anos... O Grêmio ainda não tinha sido Campeão Mundial e eu ainda acreditava em tanta coisa...

O Sonho da Drag

     Vamos fazer o seguinte. Vamos Começar de novo esta conversa. Caso contrário iremos nos matar. Bom dia Carla. Como tu está?
     Este teu jogo não me convence. Fala o que tu tem que falar. Desembucha.
     Ok. Sem meias palavras vou direto ao ponto. Quero que tu me sustente. Quero que tu banque o meu sonho. Quero ser uma Drag Queem.
     Não acredito. O meu amante quer ser Drag Queem. O cara que mantém a minha escrita em dia quer virar mulherzinha.
     Não é isso. Quero me apresentar nos palcos da vida.
     Mas precisa se transformar em mulher?
     Faz parte do show.
     Que show?
     O que estou criando na minha cabeça.
     João, me diz uma coisa. De onde tu tirou esta ideia? Na infância tu brincava de médico ou de bonecas?
     Deixa de brincadeiras, foi tu quem me deu esta ideia, Carlinha.
     Não me chama de Carlinha que não gosto.
     Lembra daquele livro que tu comprou estes dias, a biografia da Carmem Miranda. Comecei a ler o livro e vi um monte de fotos da Pequena notável. Depois pesquisei na internet e despertou este sonho. Agora depende de ti e do corno para a realização deste desejo que surgiu dentro de mim.
     João, estou te achando meio estranho. Este papo. Será que tu está saindo do armário? Como é que fica, tu é meu amante. Me deixa louca todas as terças e quintas quanto te encontro e agora como fica.
     Fica tudo igual. Continuamos todas as terças e quintas, só que tu irá me "pagar" um salário para que eu monte o espetáculo A volta da Pequena Notável.
     Já te pago o flat.
     Paga porque é lá que nos encontramos. Preciso de uma grana para montar o espetáculo.
     Não sei não. Parece muito estranho.
     Vai valer a pena. Estarei muito contente nos dias que nos encontrarmos. Serei mais viril, mais intenso, se é que tu me entende.
     Se eu topar, terei que pagar quanto?
     Quero um espetáculo grande, para ser apresentado nos melhores teatros.
     Sim, mas quanto.
     Não tenho ideia, tenho que pesquisar, mas a grana é alta.
     Vê quanto é e começa a te preparar. Quero continuar como estamos, ou seja, ninguém pode saber que estou contigo, sou casada com um prócer da república. Então, temos que manter as aparências.
     Deixa comigo, o Prócer da República, o conhecido corno da república, nunca saberá que a sua esposa transa com a Carmem Miranda.
     
      A vida entre aquele casal de amantes continuou as mil maravilhas, cada dia João precisava de mais dinheiro, afinal, estava ensaiando um musical que poderia ser encenado até na Broadway como ele insistia em dizer. O esposo da Carla cada dia mais se metia em polêmicas de todo o tipo. Até um vídeo dele apareceu onde sugeria o uso de cartão de crédito. João, de longe, ria, pois o dinheiro do seu sonho saia do bolso daquele Prócer da República como Carla o chamava. João gostava de chamar de Corno da República e o considerava nem tão prócer assim... De outro lado, o desempenho do João nas terças e quintas era cada mais elogiado. Carla estava cada vez mais contente, nunca imaginou que Carmem Miranda fosse tão viril. O pessoal da peça estranhava que o João não podia ensaiar nas terças e quintas, dizia que tinha reunião com o financiador do espetáculo.
     Carla não tinha se acostumado com um detalhe. O figurino espalhado no flat, balagandãs, bananas, vestidos e muitos sapatos de salto alto, testemunhavam o desempenho dos amantes. Carla sempre era convidada para ver os ensaios, mas nunca ia. Não podia ser vista lá e pensava que iria prejudicar a visão que tinha do João...
     Dois anos se passaram desde a primeira conversa. Muito dinheiro foi depositado no sonho do João. Chegou o dia da estreia. Uma grande campanha de mídia foi desenvolvida, dinheiro não era o problema, o prócer da república, de forma indireta, continuava a financiar o espetáculo. 
     Carla insistiu com o seu marido em ver um espetáculo que iria estrear no Teatro Municipal do Rio. Um desconhecido que divulgava o espetáculo em todos os programas de televisão, colunas de jornais e em revistas de circulação nacional. Os dois conversavam em uma quarta-feira qualquer:
     Carlinha, vi o cara. Uma biba de quase dois metros vestido de Carmem Miranda. Como o cara iria interpretar uma mulher de apenas 1,50? Só no Brasil. 
     Da onde tu tirou que o cara é biba? Aliás, o nome dele é João Alberto Nascimento e Silva.
     Conheço Biba só de olhar. Lembra do projeto da Cura Gay? Acho que o ele seria o primeiro a ser curado. Ainda vou reapresentar aquele projeto salvador...
     Será? Acho que é um novo talento surgindo. O que tu acha, poderíamos ver o musical. Não se fala de outra coisa no Brasil.
     Mas poderiam falar de mim. Estou meio fora da mídia. Depois das polêmicas do início do ano, desapareci da mídia. Pode ser uma boa ir neste musical. Compra os ingressos.
     Já comprei e é para a primeira fila.
     Primeira fila? Como conseguiu? Lá no gabinete, só conseguiram para as últimas filas.
     Tenho meus segredos.
     Segredos?
     Maneira de dizer.
     Deixa para lá. Não quero saber destes segredos. Já bastam os meus que escondo de todos.
     Marquinho, não tenho nada a te esconder. Carla mentiu descaradamente, coisa que ela sabia fazer como ninguém. Talvez tenha aprendido com o marido.
     O dia da estreia chegou. Tinha muita gente. Mas o Teatro não lotou, embora estivesse bem cheio. João estava uma pilha de nervos, a voz desafinava toda hora. O figurino do espetáculo, embora tenha custado uma nota preta, era de muito mal gosto. João, no alto dos seus quase dois metros, não era uma figura que lembrasse a Carmem Miranda. Por quase duas horas todos testemunharam um dos mais estranhos espetáculos que o Teatro Municipal testemunhou nos seus 104 anos. Se não bastasse o sofrível musical, ninguém entendeu o agradecimento ao final do espetáculo do intérprete de Carmem Miranda:
     Esta noite é a concretização do sonho de uma vida, teria muitas pessoas a agradecer, mas primeiramente agradeço a quem acreditou no meu sonho, a pessoa que em todas as terças e quintas conhece o verdadeiro João, hoje estou muito feliciano.
    Carla por dentro ri, chora, sente orgulho. Queria também esganar o João. Por que fazer aquela citação...
     Na terça o desempenho do João foi inqualificável e foi quando ele apresentou seu novo sonho.

Trilha Sonora:
Down The Road - Kansas 1977 - Kansas - Providence Civic Center, 1977-12-13
Angel - Eric Clapton & Jeff Beck - Two Blue Birds Fly
In the Lap of the Gods ([Instrumental) - The Alan Parsons Project - Pyramid (Expanded Edition)
Part Of The Machine (Bonus Track) - Jethro Tull -  Crest of a Knave [2005 remaster]
Ticket To Ride - The Carpenters - The Singles 1969-1973
The Bully  - Sia - Colour the Small One
After Midnight - Eric Clapton & Mark Knopfler - After Midnight (Live)
Ensaboa - Marisa Monte - Mais
Money For Nothing - Eric Clapton, Mark Knopfler, Phil Collins -  Romantic Isolation
Beyond - Daft Punk - Random Access Memories
Fleetwood Mac - Say You Love Me - Rock 70´s
Rock & Roll Suicide - David Bowie - Singles Collection, Vol. 1
Amor I love you - Marisa Monte- Memórias, crônicas e declarações de amor
Bottoms Watashitachi No ... - U2/Passengers - Miss Sarajevo
H. D. Blues - Garotos Da Rua - Hot 20
Hot Fun In The Summertime - Sly & The Family Stone - Rolling Stone Magazine's 500 Greatest Songs Of All Time
Família - Titãs - Cabeça Dinossauro
El Mareo - Bajofondo - Mar Dulce
Rolling Stones - Wild Horses -  Rock 70´s
Si No Fuera Por... - Soda Stereo - Nada Personal
Busy Baby Montage - Eric Clapton & Marc Shaiman - The Story Of Us (OST)
32 Dentes - Titãs - O Blesq Blom
End Of The World - Gary Moore - We Want Moore! (Digital Remaster)
I Shot The Sheriff (13 02 2009) - Eric Clapton - Welcome to Osaka Castle Hall
Billy Joel - Piano Man - Clássicos Rock 500
Reforma no Banheiro - Pata de Elefante - Na Cidade
Mercedes Benz (Live) - Concrete Blonde - Recollection
Julia - Pavlov’s Dog - Rock Legends

24 de agosto de 2013

Mais médicos, mais direitos, mais casas, enfim, mais qualidade vida.

     O Brasil de tempos em tempos se revela. Ou melhor, uma parcela de brasileiros revela-se, brasileiros que não aceitam um novo modo de enfrentar problemas, brasileiros que perderam o poder de mandar no Brasil.
     Nestes últimos dias estamos diante de uma manifestação do mais puro preconceito travestido de defesa de direitos de trabalhadores explorados. A batalha está no campo do trabalho de médicos no interior do Brasil. Primeiramente, foi oferecido aos médicos brasileiros a oportunidade de trabalharem naquelas regiões esquecidas por nós todos. Isso mesmo, lugares onde não vamos, não conhecemos, não temos interesse em conhecer. Se tivéssemos interesse, o Brasil já teria solucionado o problema de quem nasceu e vive nestes lugares. Interior do interior do Brasil. Onde não há resorts, grandes hotéis shoppings ou a presença do estado para dar atenção a brasileiros que teimam em lá viver.
     Muito bem, o Estado brasileiro (não importando que partido esteja lá) criou o programa Mais Médicos e poucos médicos brasileiros quiseram ou se dispuseram a ir a tais rincões, mais ou menos 1800. Em anos passados os governos diriam "que pena não temos médicos, paciência, um dia conseguiremos levar médicos para o interior do Brasil. Um dia."
     O Brasil mudou, mudamos nós (não todos) e não nos conformamos com tal silêncio ou nesta vã promessa de um dia levarmos médicos para todos os brasileiros. Queremos mais, precisamos de mais, gritamos nas ruas por mais. Não todos. O Governo brasileiro (reafirmo, pouco importando que esteja transitoriamente no governo, afinal, vivemos numa democracia) resolveu não fazer como sempre fizemos. Deu um passo adiante e ofereceu as vagas para médicos de outros países, tais como Espanha, Portugal, Argentina, Uruguai. E mais, ofereceu para Cuba. Mas quando se mencionou Cuba, os mesmos de sempre estrilaram. Gritaram o mesmo discurso atrasado e nefasto de sempre: "querem implantar o comunismo no Brasil", "querem transformar a nossa democracia na ditadura dos irmãos Castro" ou então, "querem transformar o Brasil numa grande Cuba, um Cubão latino". Ora, como se contratar médicos de Cuba tivesse o condão de alterar toda nossa história, como se médicos fossem os guerrilheiros treinados em Cuba nos anos 1960 e 1970 para espalhar a revolução socialista pelo mundo.
     Mas estes que gritam não querem ser enxergados como pessoas ultrapassadas, não têm coragem de assumir o que são, ou seja, pessoas que apenas querem manter o status quo vigente. São defensores de direitos para alguns e deveres para todos. Defendem suas castas, seja de médicos, advogados, farmacêuticos, servidores públicos, engenheiros, enfim, apenas defendem os seus direitos, ou como dizia uma pessoa muito querida para mim, "primeiro os meus Mateus". Defendem os seus depois,s e der, os outros...
     Os Lacerdistas dos tempos modernos erguem a bandeira da defesa dos direitos dos trabalhadores explorados pelo explorador governo brasileiro. Não querem que venham médicos, especialmente de Cuba, pois estes recebem seus vencimentos através do governo de Cuba. O Brasil deposita o valor numa conta do governo cubano e este repassa para os médicos cubanos. Simples. Quem vive num sistema como o de Cuba, gostemos ou não, têm uma outra visão de mundo, onde a pessoa está em primeiro lugar e não o dinheiro. Mas aqui, os mesmos de sempre defendem que o Brasil não mude, mas não querem assumir este papel, se travestem de defensores dos trabalhadores, atacam o programa Mais Médicos. Não vi estes "defensores de trabalhadores" erguerem a voz em defesa dos bolivianos ou peruanos que são "contratados" no Brasil em condições desumanas para produzirem roupas para grandes marcas internacionais. Mas aí não tem problema, pois a s roupas são usadas em festas da alta sociedade. Neste caso não há trabalho escravo. Como assim? Se não é trabalho escravo costurar roupas por 14 ou 15 horas por dia a troco de quase nada é o que? Diversão? Empreendedorismo? Oportunidade de mercado? Claro que é trabalho escravo? Por que não gritam e defendem estes explorados? Será que os médicos cubanos merecem mais atenção do que os escravos do ramo têxtil bolivianos ou peruanos?
     Mas ainda tem mais. Um representante do Conselho de Medicina de Minas Gerais chegou a orientar os seus associados a não ajudarem os médicos cubanos ou de outros países que vierem ao Brasil. Quando li aquela notícia não acreditei. Pensei que era exagero do jornalista, mas a notícia saiu em vários órgãos da imprensa nacional. Confesso que desanimei, mas na mesma hora percebi que era apenas a casta se revelando, protegendo direitos de uma categoria. Faz parte do jogo. Este jogo está sendo jogado deste 1500... agora os perdedores de sempre estão dando um basta e estão virando o jogo. Não é simples, não é isento de sofrimentos, mas estamos lutando por um novo Brasil, não importando quem esteja no governo, importa que faça o que tenha que ser feito para mudar o resultado deste jogo. Queremos que todos os brasileiros ganhem e não apenas a mesma casta.


PS: Os médicos cubanos atuam em mais de 58 países. Será que estes países exploram os médicos cubanos? Será que nestes países existe quem defenda os explorados médicos cubanos? Será? A respostas são claras... basta pensar um pouco. Por fim, ao formamos nossa opinião sobre a contratação de médicos do exterior é interessante lembrar daqueles que serão atendidos por estes médicos.

Trilha sonora:
Love is a losing game - Amy Winehouse - Back to black
Under My Thumb - Streetheart - Rock 70´s
Gimme Shelter - The Rolling Stones - Live Licks
Blinded By Rainbows - The Rolling Stones Voodoo Lounge
Hot Child in the City - Nick Gilder -  Rock 70´s
American Garage - Pat Metheny Group - American Garage
Don't Stop (Album Version) - The Rolling Stones  Four New Licks Promo CD
Can't You Hear Me Knocking -The Rolling Stones - Live Licks
Talisma - Vitor Ramil - A Paixao De V Segundo Ele Próprio
Loucos De Cara - Vitor Ramil - Tango
Só Você Manda em Você - Vitor Ramil - Tambong

1 de agosto de 2013

Bandido de Respeito - Parte II

     Continuação do post Bandido de Respeito I

     Após aquele encontro inusitado em frente a casa do banqueiro falido, alguns dias se passaram. Mas a vida não parou para o Bandido de Respeito. Afinal, estava em processo de desaposentação e tinha uma reputação para honrar. Entretanto, por mais que tentasse, não saia da sua cabeça aquele encontro com o Delegado João Alberto. O plano de roubo continuava firme, apesar dos incômodos da idade. Estes dias teve que ficar internado por três dias, uma gripe forte quase levou o Bandido de Respeito para o encontro final
     Fazia de tudo para esquecer o Delegado João Alberto. Entretanto um fato também p incomodava. O que o delegado bonitão estava fazendo em frente à mansão do banqueiro falido?  Enfim, não dedicaria muito mais tempo para imaginar um porquê. Inegavelmente aquele encontro havia mexido com Bandido de Respeito. Volta e meia voltavam a sua cabeça aquelas insinuações de amasiamento com algum delegado...
     O tempo passava e cada vez mais o plano se aproximava da sua execução. Sentia um certo frio na barriga, mesmo sendo um bandido experiente. A bem da verdade estava um pouco enferrujado, com algumas dores espalhadas pelo corpo, mas a mente estava a milhão. O plano não tinha como falhar. Como o tal banqueiro estava na beira do precipício financeiro, todos os dias aparecia um oficial de justiça diferente naquela casa e ele iria se disfarçar de Meirinho para roubar aquele tesouro. Seria uma espécie de penhora às avessas. O grande dia estava chegando. Já tinha fatiota, um crachá falsificado e uma Mandado de Busca e Apreensão que enganaria até um juiz de direito.
     O banqueiro não era bobo, teria que abrir o olho. O cara estava escaldado, talvez só as cuecas não estavam penhoradas, tamanha era a pindaíba que estava passando. Também pudera, gastou como louco por muito tempo. Obras de arte, carrões, festas para o High Society, virou um mecenas em poucos anos de atuação no mercado. Mas como diziam um grande amigo do Bandido de Respeito "La maison je tombe". Ao lembrar da daquela expressão começou a rir sozinho, parecia uma criança.
     Após mais alguns dias de observação e preparação dos documentos, chegou o grande dia. Uma terça-feira, dia ideal para o aparecimento do Oficial de Justiça Carlos Alberto de Carvalho e Silva com o Mandado de Busca e Apreensão número 13597/2013 da 5ª Vara Cível de São Paulo. Bandido de Respeito às 9:40 da manhã bate à porta da Mansão do banqueiro falido. Uma serviçal abre a porta e pergunta:
     - O que o senhor deseja?
     - Sou oficial de justiça e estou aqui para cumprir um Mandado de Busca e Apreensão. Venho apreender o escrito Enûma Eliš.
     - Senhor, nunca ouvi falar neste tal de Ecuma Ebis. Acho que o senhor bateu na casa errada, mas vou lhe encaminhar para a pessoa que fala com os oficiais de justiça aqui na casa.
     Nisso aparece nada mais nada menos que O delegado João Alberto. Bandido de Respeito pensou que o plano iria por água abaixo, mas a sorte que ele também era muito bom em disfarces. E desta vez tinha caprichado, nem ele mesmo se reconhecia no espelho, mas o João Alberto não era bobo. Agora Inês era morta, tinha que seguir em frente, mesmo com aquele frio na barriga.
     - Em que posso ser útil. Não tinha sido informado que hoje viria algum oficial de justiça.
    Bandido de Respeito parou por alguns segundos e disse:
     - É uma medida cautelar. E tenho que levar a obra Enûma Eliš para o depósito da Vara.
     - Que estranho, acho que conheço o senhor. Este porte me lembra muito uma pessoa das minha relações...
     Bandido tremeu e não conseguiu segurar:
     - Das suas relações?
     - Relações incompletas... Mas deixa para lá. Mas no que se refere ao Enûma Eliš, informo que nunca foi objeto de penhora. Não entendo, mas acho que poucas pessoas entendem o seu valor e alcance. Eu não me canso de observá-la e tentar entendê-la.
     Bandido começava a relaxar, era certo que o Delegado não o reconhecera. Mas também dera alguma bandeira. E também deu sua escorregadela.
     - Sei o que o senhor sente.
     - Entende? Como assim?
     - Me refiro ao Enûma Eliš. Também tenho muita admiração. Mas para encurtar esta conversa, preciso levá-la para o depósito judicial em cumprimento ao Mandado.
     - É, mas o senhor não entende. Sou o Administrador da massa falida. E não tem como o senhor levar o Enûma Eliš. Só se for despachado pelo Juízo da 5ª Vara de Falências onde está correndo o processo de falência.
     Bandido não se deu conta, mas o Banco do tal banqueiro tinha ido para as cucuias e, claro, que seria decretada a sua falência. Mas sempre havia uma saída.
     - Sim, mas e esta ordem judicial será descumprida?
     Cheque mate gritou por dentro, Bandido sempre ouvira que ordem judicial era para ser cumprida e não discutida.
     - Meu senhor, apesar deste pórtico atlético, apesar da sua bela aparência, apesar de me lembrar uma pessoa querida, tenho que lhe informar que o juízo da falência prefere os demais.
     - Prefere?
     - Tem prevalência. Entendeu?
     - Entender, não entendi. Só sei que tenho que levar o Enûma Eliš. E hoje.
     - Vou ter que ligar o diretor da vara.
     - O senhor falou vara?
     Rapidamente João Alberto completou:
     - Vara de falência...
     Vendo que seu plano não estava dando certo e que tudo poderia ser descoberto tentou a última cartada. Pelo menos daquele dia.
     - Posso convidar o senhor para tomar um café? Quem sabe possamos achar uma outra solução.
     Aqueles dois ficaram se olhando. Mil pensamentos invadiram suas cabeças. Ficou claro que existia uma simpatia entre eles. Só Bandido de Respeito sabia o porquê desta simpatia entre eles.
     João Alberto também sabia o porquê ou talvez suspeitasse...

Continua em algum dia. Talvez demore pouco, pois o final já sei. Todos Sabemos, o crime não compensa... ou será que compensa?

Trilha Sonora:
Countdown - (Captain Fingers) - Lee Ritenour - Rit
Don't Panic - Vários Artistas - EP's
Space Dementia - Muse - Hullabaloo Soundrack [Live at le zenith Paris 28-29/08/01] (Disc 2)
Bichos Escrotos - Titãs - Cabeça Dinossauro
She's Waiting - Eric Clapton - Greatest Hits - Vol I
Black Dog - Led Zeppelin - Clássicos Rock 500
Virda - Vitor Ramil - Tango
Pretending - Eric Clapton - Greatest Hits - Vol I
No Necesito Verte (Para Saberlo) (Krupa Mix) - Soda Stereo - Zona De Promesas (Mixes 1984-1993)
La Zona Rosa - Spyro Gyra - Down The Wire
Invento - Vitor Ramil + Marcos Suzano - Satolep Sambatown
Só Você Manda em Você - Tambong - Vitor Ramil
Subte - Tambong - Vitor Ramil

29 de julho de 2013

Um certo Argentino

     Estes dias estava dirigindo, não fala nada, mas pensava em alguém. Gosto muito de dirigir e ficar naquele estado de atenção misturada com relaxamento. Minha esposa me olhou e perguntou no que estava pensando. Aquele questionamento me pegou de surpresa. Sim surpresa, pois estava em outros mundos, mesmo que estivesse prestando atenção no trânsito, carro que vem, carro que passa, sinal para entrar ou sair, olhos nos espelhos, enfim, tudo que envolve este ato complexo que é dirigir. Minha reação inicial foi dizer:
     - Não estou pensando em nada, apenas atento ao trânsito.
     Mas dentro de mim aquela pergunta caiu como uma bomba atômica. Estava pensando e muito. Por incrível que pareça (friso não tenho nenhuma ligação com a igreja Católica), mas estava pensando no Papa Francisco. Quando me dei conta desse fato, não entendi muito bem o porquê. Pensei que aqueles pensamentos era devido a exposição demasiada do Papa na mídia nestes últimos dias de JMJ.
      Lá no fundo tinha a percepção que era muito mais do que isso. Devo reconhecer que gosto do jeito de Bergoglio, agora conhecido como Francisco. Gosto da sua forma despojada e humilde. Gosto das suas falas, de alguma forma mexem comigo. Repito, não sou Católico, muito menos praticante. Mas este senhor tem algo que me cativa. Suas frases me falam diretamente ao coração.
     A sua fala sobre os jovens e idosos mexeu com este blogueiro. Sei que o Papa representa uma instituição que tem compromissos com muitas coisas, tenho consciência que ele sozinho não conseguirá mudar a igreja nos pontos que ela precisa mudar. Penso que ele tem consciência destas limitações de ação. Mas ao mesmo tempo, através de suas fala, consegue fazer muito. Toca no coração de quem está disposto a ouvir. Não sei onde, mas estes dias me deparei com a seguinte declaração do Papa Francisco:
"... um jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre ruim. A utopia é respirar e olhar adiante."
      Imagino as limitações do Papa ao proferir cada frase, imagino o quanto ele deva pensar até formular uma frase. Por isso as frases não foi ditas do nada, é produto de muita reflexão, cada palavra tem a sua importância, não há em suas falas palavras ditas somente por serem ditas. Têm a função de levar à reflexão.
     Na mesma entrevista me deparei com palavras que poderia ser dita por qualquer manifestante antiglobalização ou então em algum fórum de esquerda:

"Quem manda hoje é o dinheiro. Isso significa uma política mundial economicista, sem qualquer controle ético, um economicismo autossuficiente, e que vai arrumando os grupos sociais de acordo com essa conveniência. O que acontece então? Quando reina este mundo da feroz idolatria do dinheiro, se concentra muito no centro. E as pontas da sociedade, os extremos, são mal atendidos, não são cuidados, e são descartados. Até agora, vimos claramente como se descartam os idosos. Há toda uma filosofia para descartar os idosos. Não servem. Não produzem. Os jovens também não produzem muito. São uma carga que precisa ser formada. O que estamos vendo agora é que a outra ponta, a dos jovens, está em vias de ser descartada."
     Quando um Papa tem a fala que as ruas entendem, sem a necessidade de interlocutores, a mensagem passa a desempenhar o seu verdadeiro papel. Fazer as pessoas refletirem. O que o Papa Francisco está fazendo é nos proporcionar momentos de reflexão.
     Os exemplos do Papa. As suas atitudes despojadas, sua vida sem luxos ou outros excessos, aliados com uma fala em consonância com o tempo atual proporciona a reflexão que todos se submetem ao ouvir o Papa Francisco.
     Não sou ingênuo ao ponto de imaginar grandes transformações na Igreja, mas me contento com as mudanças em cada um de nós a partir do surgimento de Bergoglio.
     Quando a minha esposa me perguntou em que estava pensando, quase respondi:
      - Em um argentino que passei a gostar...
     Mas achei que ela não iria entender muito.

Trilha Sonora:
Ring Out, Solstice Bells - Jethro Tull - Songs From the Wood
Minha Virgem - Vitor Ramil - À beça
Do You Want To Know A Secret - The Beatles - Please Please Me
Chega de saudade - Antônio Carlos Jobim - Inédito
 Não, Não Digas Nada - Secos & Molhados - Coletânea
Song Remains The Same - Led Zeppelin - Celebration Day
Games People Play- The Alan Parsons Project - Ultimate
New Years Day - U2 - Under A Blood Red Sky (live)
Space Oddity - David Bowie - Rock 70´s
Limelight - Spyro Gyra - Rites Of Summer
I Will Follow - U2 - The Best Of 1980-1990

25 de julho de 2013

Bandido de Respeito - Parte I

     O plano dele era somente fazer um pequeno roubo e voltar à calmaria da aposentadoria.
     Apenas mais um roubo, mas como todos os outros sem um pingo de violência. Ainda lembravam dele, volta e meia saia alguma notinha nos jornais lembrando daquele velho ladrão. Por suas ações não violentas do passado recebeu a alcunha "Bandido de Respeito".
     Por anos roubou e nunca foi descoberto. Praticava todos os tipos de roubos, mas o que mais gostava era roubar bancos. Planeja minuciosamente as ações. Nos final dos anos 60, quando iniciou a sua carreira vitoriosa de roubos, chegou a atuar em grupos de esquerda para "expropriar" bancos. Infelizmente, para aqueles grupos, Bandido de Respeito não ficou muito tempo com eles, porque tinha que mandar todo o produto para o partido ou para financiar alguma outra operação. Chegou a jantar com um tal de Preto, que tempos depois, Bandido de Respeito, veio a descobrir que era o grande Mariguella, que  estampou a capa de revista de circulação nacional com a histórica manchete "PROCURA-SE Mariguela". A tal revista nem sabia como escrever o nome do grande Mariga... Bandido de Respeito tinha certeza que se tivesse ficado ao lado daqueles que enfrentaram a Ditadura, o final da história seria outra, pois dinheiro não iria faltar para financiar as sua operações. Tinha simpatia pela luta armada, mas na verdade o que queria era a grana para gastar e viver bem. Um bandido na verdadeira acepção da palavra. Uma pena para o Brasil.
     Os anos se passaram e aquele bandido, cada vez mais admirado, nunca fora encarcerado pela polícia, nem para averiguação. Seus roubos figuraram em capas de jornais. Foi capa da mesma grande revista de circulação nacional, lembrava até da manchete: "Bandido de Respeito: Um Bandido que impõe Respeito". Entretanto, prisão nenhuma.
     Tinha orgulho de ter "derrubado" no mínimo 15 secretários de segurança, em cinco estados diferentes.  Era só prometer a sua prisão que dali uns três meses o secretaria era exonerado. Muitos diziam que ele era amasiado com alguma delegada ou delegado. Nunca gostou destas insinuações, chegou a enviar cartas para os jornais desmentindo ser amasiado de algum delegado. Pegava mal pra sua reputação. Pelo menos assim ele imaginava. Nenhum jornal publicou uma linha a respeito. Mas os boatos de ser amasiado com um delegado...
     Após anos de sumiço, ou melhor, de aposentadoria, Bandido de Respeito estava voltando à ativa.
    Olhava o jardim através da janela da confortável casa, quitada com o dinheiro, bom deixa para lá a origem do dinheiro. Ao lado os seus remédios podiam ser vistos dentro da sua "farmacinha". Dias atrás a caixa teve que ser trocada, pois ficara pequena para tantos remédios. Coisa da idade. Pensou no programa farmácia popular, comprava muitos dos seus remédios por um preço ínfimo. Começou a respeitar alguns governantes. Como era fácil fazer coisas para o povo, bastava simplesmente tentar. Infelizmente não eram todos que tentavam...
     Olhando aquela cena bucólica lembrou que dali poucos dias daria início a sua desaposentação, iria roubar um livro. Mas não era o um livro qualquer.... O peso dos anos iria dificultar a empreitada. Na verdade gostava deste desafio, roubar o que ninguém ousou roubar. A ideia surgiu na sua cabeça quando um famoso banqueiro, novo rico, comprou um tesouro Não era um diamante ou uma fortuna em barras de ouro. Não, absolutamente não. Era um livro raro, um tesouro literário que não poderia estar nas mãos daquele banqueiro. Um homem que só pensava em dinheiro não saberia apreciar aquela obra suméria. Enûma Eliš é talvez a escrita mais importante da humanidade, pelo menos assim pensava Bandido de Respeito.
     O breve retorno deveria ser muito bem planejado, pois qualquer descuido iria acabar com a sua fama de nunca ter sido preso. Bandido de Respeito tinha uma história para honrar. Muito embora sua fama tenha aquela pecha de ser amasiado com algum delegado...
     Primeiramente começou a estudar a rotina de Santos, o banqueiro falido que ousou adquirir a mais delicada obra de arte. Bandido de Respeito via apenas uma diferença entre ele e este tal banqueiro. Os dois roubavam, mas quando a coisa apertasse o tal banqueiro poderia ser socorrido pelos governos, enquanto que ele, se a coisa apertasse, poderia ser preso. Que diferença entre os dois bandidos.  Lembrou do provérbio popular "ladrão que rouba de ladrão merece 100 anos de perdão". Se conseguisse amealhar o Enûma Eliš teria o perdão eterno.
     Inegavelmente valia a tal desaposentação. Seu plano continuou por algumas semanas, começou a ir seguidamente nas redondezas da mansão do banqueiro. Numa manhã ao chegar ao endereço do banqueiro encontrou a única pessoa que não queria encontrar neste mundo.
     - Eduardo! como vai você? Quanto tempo?
     - Desculpe, mas não conheço o senhor!
     Claro que tinha reconhecido aquele senhor. Aliás, continuava lindo, mantinha o mesmo porte dos tempos que era o titular da delegacia do 5º Distrito. Mas, claro que não poderia dar bandeira. Até porque não saia da sua cabeça as insinuações que faziam nos jornais, insinuando que era amasiado com algum delegado.
     - Eduardo, vai me dizer que não se lembra de mim. Não me reconhece, sou o Delegado João Alberto do 5º Distrito. Aposentado, mas ainda delegado. Por muitos anos te persegui, mas nunca consegui nenhuma prova para te prender. Te admirava muito.
     - Admirava? Em que sentido?
     - Profissional. Claro.
     - Ah... entendi. Só que fiquei meio confuso. Mas eu também te admirava muito.
     - Olha, não dá bandeira. Lembra o que os jornais escreviam sobre nós?
     - Sobre nós?
     - Sim. Insinuavam que tu era amasiado com algum delegado.
     - Ou delegada!
     - Mas insistiam na história do delegado. E sempre sobrava para mim. Eu era solteiro, aliás, ainda sou. E sempre fui de me cuidar. Então, eu era o "alvo" ideal daquela imprensa preconceituosa.
     - Preconceituosa, João? Isso é fala dos entendidos.
     - Eduardo, ou melhor, vamos dar nomes aos bois, Bandido de Respeito, nãodisfarça me diz o que tu está fazendo aqui?
     - Uma vez delegado, sempre delegado, nunca se deixa de investigar... Só tenho para lhe dizer que estou caminhando, pegando um ar. A idade nunca vem sozinha. Preciso cuidar desta minha abalada saúde.
     - Que engraçado, não me parece que você more aqui neste bairro de ricos, aliás, muito ricos.
     - Mais detalhes só forneço na presença do meu advogado.
     - O que houve? Não precisa ficar na defensiva, não estou mais na ativa.
     Deu uma pequena risada, talvez ele entendesse nas entrelinhas. E continuou:
     - Não quero te prender mais. Te gosto muito.
     - Não faz assim João Alberto.
     Aqueles dois homens vividos ficam a olhar e pensar no que passaram. No que deixaram de passar e no que ainda podiam passar. Mas não falavam nada, apenas se olhavam. Ao fundo a casa daquele banqueiro quase falido... que abrigava o tesouro


Continua em breve, espero que não demore muito, pois estou curioso para saber onde irá parar esta passagem da vida do Bandido de respeito.

Trilha Sonora
Hoje escrevi sem música, somente com os sons do entorno. Sons do dia a dia. Ao escrever nesta noite fria de inverno tive que ouvir uma música que não sai da minha cabeça:

Julia - Pampered Menial - Pavlov's Dog

9 de julho de 2013

Lembranças

     Li em algum lugar que o começo é o início do fim. Quando iniciamos qualquer coisa é sinal que estamos na estrada do fim. Esta não é uma constatação de desânimo ou qualquer outro sentimento de pesar. É apenas uma constatação talvez juvenil ou quem sabe senil...

     Desde quando nascemos começamos a trilhar a estrada do fim, alguns alcançam seu destino mais rapidamente, outros demoram para chegar ao seu destino final.Tudo que vivenciamos é assim.
     Nas relações humanas não é diferente. Quando encontramos pessoas interessantes pelo caminho é sinal que em algum momento iremos nos separar delas. Pode demorar, pode ser rápido, mas é certo que iremos deixá-las pelo caminho. O pior são aquelas pessoas que saíram da nossa estrada, mas que teimamos em cruzar por elas. É uma espécie de tortura misturada com a dolorosa lembrança dos nossos erros.

     Este início de escrita sem sentido começa a tomar sentido, começo a lembrar de uma passagem da minha adolescência. Num destes invernos da vida, já passei por vários, meu irmão de alma resolveu ir à praia com alguns amigos e eu me escalei para ir junto. Foram os dias mais loucos que um adolescente pode viver. Lembro de fatos daquele final-de-semana que até hoje mexem com este blogueiro. Lá conheci mais a fundo um dos amigos do meu irmão. Estávamos na praia (que frequentávamos somente no verão, dificilmente íamos no inverno) Comecei a conhecer aquele cara que via ocasionalmente, um cara diferenciado, com uma energia indescritível, chamado César. Eu o conhecia de vista, mas nunca tinha trocado mais do que algumas palavras. Já o achava legal, nada mais do que isso. Naquele final-de-semana aprendi a gostar afundo daquele cara. Entendê-lo (até onde era possível para um adolescente). Naqueles loucos dias tive percepções que me marcam até hoje e olha que não tinha mais do que 16 anos. Conversamos muito (eu ouvia mais do que falava, afinal estava de penetra naquela história). Ríamos de tudo e de todos, de nós, no mundo que pulsava longe dali. Estávamos em outra dimensão. Nossas percepções, confesso, estavam influenciadas por substâncias por vezes líquida, gasosa ou mesmo sólidas. Consigo lembrar das tonalidades da casa, das músicas que ouvíamos, do que consumíamos e principalmente do que pensava.
     Lembro de ter naqueles dias aprendido a valorizar cada momento que estamos juntos de pessoas especiais, não pensar no dia de amanhã, não questionar sobre se vamos nos cruzar de novo, se vamos ser amigos eternos, mas sim de curtir cada segundo sem se preocupar com mais nada. Na ida para lá o César já deixou transparecer que aqueles dias eram de despedidas, ele iria para São Paulo tentar a vida como músico por lá. Quando ouvi aquela notícia, em princípio, não mexeu comigo, mas com o passar das horas fui vendo que aquela notícia era mais uma forma de aprender, pois começava a gostar da companhia daquele quase desconhecido. Ele começou a me ensinar que a vida é feita de encontros e desencontros, de amores e desamores, de chegadas e partidas.
     Ríamos juntos, parecíamos uma trupe sem rumo, que queria apenas curtir dias em uma praia deserta. Não me lembro quantos dias ficamos lá, mas sei que ficamos mais do que apenas aquele final-de-semana. Talvez não. No último dia tive uma conversa com o César na varanda da casa. Hoje relembrando, me vem na cabeça diversas passagens de um livro em especial que já tinha lido, mas que não tinha alcançado a sua verdadeira dimensão (livros são para serem lidos e relidos. A cada nova leitura temos um novo sentimento a respeito, pois nos tornamos diferentes entre uma leitura e outra.). Naquela varanda numa manhã fria, me transportei para outros lugares. Ouvi coisas que até hoje não entendo bem, mas que estão dentro de mim e provocam esta vontade de continuar tentando. Esta vontade de aprender com o caminho, a vontade de entender tudo que me cerca, não dar importância demasiada ao entorno, mas sim ao conteúdo. Ali comecei a entender que vida de aparências é apenas isso. Aparências e nada mais. Não importa a aparência, mas sim o que são na sua essência.Em um momento ele me olhou e falou mais ou menos assim:

     "Leopardo (ele me chamava assim) nesta varanda tu consegue encontrar o teu lugar? Tu leu a Erva do Diabo? Tem uma passagem mais ou menos assim, onde Don Juan pergunta a Carlos Castanheda pra ele encontrar o seu lugar em uma varanda como esta. Aquela passagem é muito mais do que encontrar algo ou apenas um lugar onde nos sentiremos completos, é sobre se encontrar e se descobrir..."

     Ficamos ali por algum tempo, não dizendo nada um para o outro, mas nos comunicando de outras formas. Eu tinha lido a Erva do Diabo e me dei conta que não tinha entendido nada. Naquela noite comecei a descobrir o meu caminho. De lá para cá, por vezes me desvio dele, mas sempre retorno àquela trilha de descobertas.
   
     O César foi um cara que passou como um relâmpago na minha vida, mas marcou profundamente. Fez a diferença Não sei onde ele está, mas sinto que ele fez parte do meu caminho no momento certo. Me despertou e seguiu sua estrada, foi breve o nosso encontro, mas foi intenso como uma vida. Por isso cada vez que me lembro dele me dá vontade de cantar:
"viajar num peixe voador...
 Com um cego a seguir imaginando o luar...".

Trilha Sonora:
Montserrat - Bajofondo - Bajofondo TangoClub
En Mi/Soledad - Bajofondo - Bajofondo TangoClub
Los Tangueros - Bajofondo - Bajofondo TangoClub
Mi Corazón - Bajofondo - Bajofondo TangoClub
Perfume - Bajofondo - Bajofondo TangoClub
Vacío - Bajofondo - Bajofondo TangoClub
Esperándote - Bajofondo - Bajofondo TangoClub
Naranjo En Flor - Bajofondo - Bajofondo TangoClub
Bruma - Bajofondo - Bajofondo TangoClub

2 de julho de 2013

Será?

     E não é que o Brasil começou a incendiar. Pensei que nunca veria algo assim. Tão visceral, tão diferente dos dias de repouso que vivemos por tanto tempo.
     Os analistas de coisa nenhuma já formularam suas teses. Os governos correram para fazer qualquer coisa. Todos, sem exceção, ficaram temerosos com tudo que testemunharam.
     Mas o que vivenciamos?
    Uma parcela da sociedade saiu às ruas para dizer que suas vidas não estavam tão boas quanto as propagandas afirmavam. Concluímos que não vivemos em um comercial de margarina. Vivemos uma realidade por vezes indigesta. Vivemos uma vida complexa. Não quer dizer que vivemos no pior dos mundos, muita coisa mudou. Mas queremos mais. Precisamos de mais. Queremos enfim gozar no final. Queremos viver uma vida padrão FIFA.
     Parece tão simples. Por que todos ficaram assustados? Por que correram para dar alguma satisfação? Será que "eles" sabiam que nossas vidas não era tão boa quanto todos propalavam aos quatro cantos? Será que "eles" só pensavam em seus conchavos?
     Realmente os que detém o poder estavam muito acomodados. Nossas dificuldades não entravam em suas agendas. Suas reuniões eram preenchidas com todos os tipos de problemas, menos os que afligem a vida real, a vida de todos os dias. Parece que colocamos todos em alerta.
     Nossos dirigentes deixaram um pouco de lado suas vidas de castelo encantado e encararam o clamor das ruas. Desta vez o som das ruas se fez ouvir. A vida dura deu um recado.
    Mas e agora qual será o próximo passo? Será que todos que saíram às ruas irão se acalmar e viverão suas vidas? Será que haverá uma nova explosão social. Será que enfim teremos poder para decidir nosso futuro?
São perguntas que ficam no ar. Sem respostas aparente. Mas o mais importante é que nos tornamos um país diferente nestes últimos dias. Não sei se para melhor, só sei que estamos vivendo um outro tempo. Será?






Trilha Sonora:
Silver - Nirvana - Nirvana
Christine Sixteen - Kiss - Led Music
Saturday Night'a Alright for Fighting - Elton John - Classic Rock Gold Disc 1
Walking Man - James Taylor - Greatest Hits
Too Old To Rock And Roll, Too Young To Die - Jethro Tull - A Little Light Music