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Três vidas

     - Gosto de ti, mas não sei como suportar este amor.
     Com estas palavras Eduardo deixou para trás uma vida em comum. Quando percebeu não estava mais ao lado da única pessoa que amara nesta vida. Caminhava sem rumo, assim como estivera sua vida até então.
     Vitória olha aquele homem caminhando ao longe e não entendia o porquê de tudo que estavam vivenciando. Ou melhor, sabia muito bem o porquê. Tentava, sem sucesso, esquecer o passado.
     Naqueles anos de relacionamento era interessante perceber como tudo se modificou na vida de ambos. Quando se conheceram todos diziam que o amor entre eles não daria certo. Tudo e todos conspiravam contra o amor daquele casal. Os dois lutaram com todas as forças, mas chegou num ponto que ambos fraquejaram. Primeiro Vitória depois Eduardo. Até a vida conspirou contra o amor dos dois.
     Vitória começou a caminhar na direção contrária de Eduardo. Aliás, sempre foi assim, nunca os dois andavam juntos, sempre escolhiam caminhos diferentes. Chegavam ao mesmo ponto, mas nunca juntos. Que vida tortuosa. Naquele momento Vitória lembrou do primeiro conflito entre eles, talvez o maior que um casal pode vivenciar, afinal, tiveram que decidir entre três vidas. Lembrou como se fosse hoje a conversa que definiu a vida dos três. Os dois estavam no seu lugar preferido em Porto Alegre, no alto do morro da Embratel na igreja Nossa Senhora da Mãe de Deus. A ironia das ironias aquela conversa ocorrer justamento no lugar escolhido para um eventual e esperado casamento.
     - Eduardo tenho que te dizer algo muito sério. Acabou a fantasia, agora é a vida real.
     - Tu está muito séria. O que foi que houve?
     - Estou grávida!
     - Como assim grávida?
     - É isso mesmo, hoje confirmei com a minha médica. De cinco semanas. Não sei como foi acontecer sempre fui tão regulada e tão cuidadosa, mas aconteceu.
     - Então temos que decidir o que vamos fazer.
     - Agora sou eu quem pergunta. Como assim o que vamos fazer?
     - Ué, vamos ter este filho ou vamos fazer um aborto?
     - Não acredito que estou ouvindo isso.
     - Vitória, temos que conversar sobre a decisão a ser tomada.
     - Eu não tenho dúvida sobre o que fazer.
     - Então tu quer ter o filho...
     - Não tenho dúvida, não quero ter um filho agora, irei fazer um aborto e pronto.
     - Mas Vitória tu não discutiu esta decisão comigo. Nós deveríamos decidir juntos.
     - Eduardo deixa de lirismos inúteis, eu sei muito bem a tua opinião. Então não vamos fantasiar o que poderíamos fazer ou deixar de fazer. Só estou te dizendo que estou grávida para compartilhar esta dor.  Afinal, estou de uma certa forma... deixa para lá. Não quero sentimentalismos, devemos ser práticos, onde e quando irei fazer o aborto.
     A expressão do Eduardo modificou-se, a vida de ambos modificou-se em poucos minutos, o amor dos dois, enfim, começava a sucumbir e em frente à igreja onde planejavam casar.  O amor que ambos consideravam eterno encontrava o seu fim.
     - Vitória tu é incapaz de amar. Como alguém pode ser tão pragmática quando se trata de uma vida. Tu está tirando uma vida!
      - Eduardo tu parece um padre. Só falta a batina. Os dogmas estão todos presentes nesta conversinha fiada. Mas deixa para lá. Já decidi o que irei fazer. Só preciso saber se tu irá me ajudar.
     - Querer eu não quero ajudar. Mas se tu decidiu, está decidido e claro irei te ajudar. Mas saiba que não concordo com a ideia de aborto.
     - Só para eu entender. Eduardo tu está querendo dizendo que irá assumir este filho e que iremos criá-lo juntos? Tu quer que o nascimento desta criança?
     - Não estou dizendo que quero que ele nasça, só estou...
     - Claro, agora entendi. Tu não quer assumir a decisão de fazer o aborto, mais uma vez tu está sendo aquele menino imaturo que eu conheço. Deixa comigo, eu sou forte o suficiente e assumo esta decisão. É uma decisão difícil, mas que tem que ser tomada e tenho certeza que tu não está preparado para tomá-la.
     - Tu sempre diz que sou imaturo, mas não quero chancelar esta decisão de fazer um aborto. Só isso. Não quero ter uma morte nas minhas costas. Entende?
     - Posição cômoda a tua. Não quer decidir, mas também não quer assumir o filho. Não se compromete. Sempre sendo o velho Eduardo que conheço. Deixa comigo eu decido o que fazer. Sou capaz de entender. Sempre defendi este direito das mulheres. Então chegou a hora de colocar em prática tudo que sempre defendi. Não te preocupa. Sei muito bem o que eu quero.
     - Vitória faz o que tu quiser o corpo é teu. Irei te ajudar no que tu precisar.
     Então o aborto foi realizado.
     Naquela tarde de primavera, no alto do morro da Embratel o amor dos dois começou a sucumbir. No mesmo lugar aonde iriam se casar a relação encontrou o seu ocaso.
     Anos depois do término da relação os dois se encontraram e por mais incrível que possa parecer foi no mesmo lugar, a Igreja nossa Senhora da Mãe de Deus. Quando chegou lá Eduardo reconheceu Vitória sentada no mirante com os mesmos cabelos esvoaçantes e o olhar decidido de anos atrás. Mudara muito pouco. Eduardo se aproximou e perguntou:
     - Vitória. Tu aqui. Quanto tempo não nos vemos.
     Vitória surpreendida, não se virou porque reconheceu aquela voz.
     - Eduardo, sempre venho aqui.
     - Os fantasmas do passado me assustam. Invadem minha vida a todo o momento. Cada vez mais me arrependo de alguns atos da minha vida. Principalmente no que se refere à decisão mais difícil da minha vida. Me arrependo de não ter lutado por ti e pelo nosso amor. Hoje seríamos a família que sempre desejei.
     - Este é o Eduardo que conheço, o sentimental de sempre.
     - Não sou só eu o sentimental, porquanto tu estás aqui também.
     Vitória constata que o vocabulário do Eduardo estava mais refinado. Então vira o rosto em direção da voz e surpreende-se com o homem que ali está. Um Eduardo completamente modificado, vestindo um terno elegante, um sobretudo muito bem cortado e o que a surpreendeu mais ainda, Eduardo agora tinha cabelos grisalhos... não escondendo sua surpresa apenas balbuciou:
     - Como tu está diferente. Parece mais maduro e decidido, muito embora ainda seja o mesmo sentimental de anos atrás.
     Eduardo em meio a um sorriso completa:
     - Tu quer dizer mais velho e que ironia, só pela minha roupa tu me considera mais maduro. Trocamos meia dúzia de palavras e tu me consideras mais maduro. Não é a ironia das ironias?
     - É irônico mesmo. Mas só ao te ouvir e te olhar nos olhos já é perceptível que és mais decidido e não aquele menino que conheci no passado. Mas tu pode me dizer por que está aqui hoje?
     - Não sei, mas senti uma necessidade muito grande de vir aqui, talvez para chorar, talvez para rever minha vida, talvez para simplesmente te encontrar. Não sei. Mas hoje algo me trouxe até aqui, algo que não sei explicar. E tu Vitória, por que tu veio aqui?
     - Eduardo a vida não é o que parece. Lembra que depois da nossa decisão nunca mais nos encontramos. Nem no dia do aborto tu estava ao meu lado. Me mudei para o interior e comecei uma vida nova. Mas, a vida como te disse, não é o que parece. No nosso caso tudo se modificou numa simples esquina pela qual passei. No dia que fui fazer o aborto ao entrar na rua da clínica encontrei o Leonardo, lembra dele?
     - Claro. Ele sempre gostou de ti. Era apaixonado por ti...
     - Este mesmo. Então, ao me ver ele simplesmente me abraçou e disse que estaria comigo para sempre, ele sempre foi muito sensível, na hora percebeu que eu não estava bem. Ali no meio da rua sentimos que aquele encontro iria mudar nossas vidas. E de fato mudou. Ele pegou a minha mão e nunca mais nos separamos...
     Naquele momento um homem e um adolescente saem da igreja. Os dois saem abraçados e param em frente da igreja e ficam sorrindo e olhando Vitória.
     Eduardo olha aquela cena e pergunta:
     Ali é o Leonardo? E aquele ao lado dele é meu filho?
     Não. Aquele é meu filho e do Leonardo. Eduardo, naquela época que estávamos juntos tu disse que eu não era capaz de amar. Mas na verdade, quem não tinha a percepção do amor sempre foi tu. Então, tu  nunca poderia ser o pai do meu filho. Eduardo tu me desculpa, mas tenho que ir encontrar aqueles dois, temos muitos lugares para ir hoje, afinal, é o aniversário do Guilherme e prometi levá-lo nos lugares que marcaram minha vida aqui em Porto Alegre.
     Vitória caminha em direção do Leonardo e Guilherme. Quando os alcança na entrada de igreja ouve a pergunta:
     - Mãe quem era aquele homem com quem tu conversava?
     - Meu filho, aquele homem é o Eduardo, um amigo que nunca conseguiu entender o que é ser pai.
     Os três acenam para Eduardo que fica parado olhando para eles que caminham em direção ao estacionamento. Eduardo constata que os três formam uma família muito bonita e parecem felizes. No mesmo instante percebe o jeito engraçado de caminhar do filho da Vitória, tem os mesmos trejeitos dele quando era adolescente...


Trilha sonora
With A Little Help From My Friends - The Beatles - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band
Urbania - The Alan Parsons Project - The Instrumental Works
Summer Song - Joe Satriani - Live In Paris: I Just Wanna Rock (CD2)
Stories For Boys - U2 - Boy (2008 Bonus CD)
Running On Faith (Unplugged) - Eric Clapton - Greatest Hits - Vol I
Please Mr. Gravedigger (The Original Stereo Album Mix) - David Bowie - David Bowie (Deluxe Edition)
Pan Dance [*] - Jethro Tull - Minstrel In The Gallery
Neil Young - Heart of Gold - Clássicos Rock 500
It's Your Thing - The Isley Brothers - Rolling Stone Magazine's 500 Greatest Songs Of All Time
I Still Haven´t Found What I´m Looking For - Emmerson Nogueira - Acústica III
Hunt By Numbers - Jethro Tull - J-Tull Dot Com
Hooray - Grand Funk Railroad - We're An American Band
He's A Rebel - The Crystals - Rolling Stone Magazine's 500 Greatest Songs Of All Time
Foxey Lady - Jimi Hendrix  - Rock 70´s
Estrela, Estrela - Vitor Ramil - Tambong

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