Pular para o conteúdo principal

Os conflitos de Lucas

     - Hoje você me disse que tudo estava acabado. Mas estamos aqui neste motel.
     - Não retiro o que te disse. Estar aqui é mais uma prova que o nosso amor acabou e que o único lugar onde ele ainda pulsa é aqui. O que é uma pena.
     - Mas ainda tem um lugar onde somos felizes.
     - Tu acha que felicidade é isso que vivemos? Se tu acha que isto aqui é felicidade, tenho que te dizer que você nunca foi feliz...
     - Eu aqui nos teus braços sou a mulher mais feliz deste mundo e isto é felicidade para mim.
     - Pois eu queria algo mais.
     - Lucas, tu é o primeiro homem que me diz isso, talvez por isso você seja tão especial.
     - Não sou especial, apenas quero ser feliz e formar uma família. Só isso, será que é pedir demais?
     - Com certeza para uma mulher como eu é pedir demais... Nem meu nome tu sabe. Só meu nome de guerra.
     - Como assim, tu não se chama Sharon?
     - Claro que não. Meu nome é comum e não combina com o que faço.
     - Então se revele, pelo menos nesta noite.
     - Me chamo Maria Clara.
     - Que nome lindo. Muito mais bonito do que Sharon.
     - Mas não tem nenhum apelo sensual. Na noite o nome é muito importante. Abre caminhos.
     - Para de falar assim, me dá ideia de que tu é uma prostituta.
     - E não sou? Que parte da minha vida que tu não entende? Ou tu acha que vivo com este padrão de vida porque sou uma ótima balconista? Acorda Lucas. Abre os teus olhos.
     - Mas nunca te paguei para transar contigo... Como tu pode ser prostituta?
     - Porque te amo seu trouxa. Não deu para perceber? Contigo senti um amor especial. E não se restringe a este quarto de motel como tu disse antes. É muito maior do que isso, não sei te explicar. Mas naquele nosso primeiro encontro senti que tu era diferente. Aliás, nunca conheci alguém como você Lucas.
     - Sharon, ou melhor, Maria Clara, naquele dia eu consertava o teu notebook. Me lembro até hoje, quando cheguei na tua casa achei tudo muito estranho. A decoração um tanto ousada. Aqueles quadros um tanto eróticos. Mas tu me tratou normalmente e estava vestida como uma moça de família, por isso não desconfiei de nada.
     - Lucas, é lá que eu trabalho...
     - Mas por que tu não larga tudo e começa de novo. Talvez comigo.
     - Mas tu disse que estava tudo acabado entre nós. Como é possível?
     - Maria Clara tu sabe que te amo também, mas não consigo ficar longe de ti todas as noites, sem saber o motivo das tuas ausências. Por isso queria terminar, mas saiba que te amo muito. Eu não imaginava que tu era prostituta... Nem sei o que pensar. Não sei como agir contigo.
     - Aja como sempre tu agiu, com respeito e este amor quase infantil...
     - Mas como ser assim se tu é...
     - Prostitua. Fale. Eu sou prostituta e não tenho vergonha. É um profissão honesta. Muito mais honesta dos que muitos políticos que estão por aí.
     - Isso é verdade. Mas...
     - Mas o que. Não tem mas. A vida me levou para esta atividade. E agora sou uma freelancer. Não tenho cafetão, não trabalho em boates. Tenho meus clientes cativos. Neste ramo de atividade não tem crise em bolsa ou subida de juros que abale.
     - Maria Clara, não te entendo.
     - Lucas, quero te fazer uma proposta. Tu não quer ser o meu cafetão?
     - Como assim?
     - Isso mesmo que tu ouviu. Tu não quer ser meu cafetão? Tu irá gerenciar minha atividade profissional. Agendar encontros, cuidar para não que não haja encontros muito próximos, afinal tenho que descansar também. Fixar valores para cada tipo de encontro ou de acordo com cada nível de cliente. Enfim, tu ira gerenciar minha carreira. Isso mesmo, você será o meu gerente. Topa?
     - Sei lá. Estou surpreso. Numa me imaginei como cafetão, ou melhor, como gerente de carreira. Mas é uma oferta tentadora, estou desempregado mesmo...
     - É pegar ou largar.
     - Mas e como ficarão nossos encontros? Ainda te amo e sinto um tremendo tesão por ti.
     - Tudo igual, ainda mais que tu saberá os horários livres. E para ti sempre estarei disponível...
     Os dois se abraçam naquela cama de motel. E transam desesperadamente. Após aquela noite tudo mudou na vida dos dois. O Lucas nunca deixou de ter ciúmes de Maria Clara, ou melhor, Sharon. Ele transformou-se no primeiro cafetão que se apaixonara e mesmo assim mantinha o profissionalismo. Esta lição aprendera com Maria Clara ou seria com a Sharon.
      A sua "gestão" dera tão certo que a agenda da Sharon está sempre lotada, o que impede que ela dê atenção ao seu gerente de carreira... Mas ele não desanima, afinal, é um bom cafetão, o mais profissional de todos.

Trilha sonora:
My Father's Eyes - Eric Clapton - Greatest Hits - Vol II
A Rose Among Thorns (The Mission) - Dulce Pontes & Ennio Morricone - Focus
Tropic Bird - Focus - Mother Focus
Wild Honey - U2 - All That You Can't Leave Behind
Alabama - Why Lady Why - Rock 70´s
Even Better Than The Real Thing (The Perfecto Mix) - U2 - The B-Sides 1990-2000
Cold Wind To Valhalla - Jethro Tull - Minstrel In The Gallery
The Sounds Of Silence - Simon & Garfunkel - Rolling Stone Magazine's 500 Greatest Songs Of All Time

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"Como fazer sexo"

O Google a cada ano nos revela as trends, em nosso amado português podemos traduzi-lo como tendências. Ou no português mais nosso ainda são os termos mais pesquisados no ano. É interessante dar uma olhada para vermos como somos fúteis. No Brasil para se ter uma ideia o termo mais pesquisado foi o BBB13. Estamos reduzidos a quase nada. Ou um nada completo.
     Mas o que mais me chamou a atenção foi um o tal tópico de "Como fazer". São todas as pesquisas com tem como intenção descobrir como fazer determinada coisa e pasmem está em quarto lugar a pesquisa "como fazer sexo". Não acreditam, então acessem o link: Trends: Como fazer sexo. Fico imaginando a pessoa "googleando" antes daquela noite (manhã ou tarde) de sexo. "Já sei como fazer, mas quero dar uma recordada, hoje promete e não quero decepcionar". É o fim da várzea.
      Eu sei que o google faz parte da nossa vida, não nos vemos sem esta ferramenta dos tempos modernos, mas pesquisar c…

Vida em anacruse

Já escrevi vários inícios. Muitos refeitos ou deletados.
     Tentativas vãs. Ou melhor, tentativas desfeitas, mas não vãs, pois todas, absolutamente todas me ensinaram alguma coisa. Na verdade pouco importa, porque a cada início tudo se repete. Queria que fosse diferente. Talvez como a música que está tocando. Follow Me do disco Imaginary Day do Pat Metheny  é a música perfeita para retratar o que quero dizer. Esta música já inicia no meio de um compasso, o que recebe o nome de anacruse, acho que é este o nome.
     A vida poderia ser uma grande anacruse. Explico. Primeiramente tenho que tentar definir anacruse como a ausência de tempos no primeiro compasso de uma melodia. Não sou músico, por isso defino a anacruse de forma tão simplória e tosca. O que quero dizer com esta figura de linguagem é que seria mais fácil se a vida fosse em anacruse, ou seja, quando menos esperássemos já estaríamos vivendo, sem nenhum subterfúgio ou intróito. Não prepararíamos nada. Não desperdiçaríamo…