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O Matador de Aluguel em crise

     Era um dia como outro qualquer. A luz do sol entrava por uma fresta. O quarto saía aos poucos da escuridão. Mais um dia começava na vida daquele homem. Como em outros dias ele não tinha vontade de iniciar aquela jornada, mas era necessário. Na rua os mesmos sons de sempre, alunos indo à escola, carros passando e a luz do dia começando a dominar a escuridão do quarto. Na luta entre o dia e a noite, mais uma vez o mesmo vencedor, que posteriormente perderia para aquela mesma noite... Não podia mais ficar divagando, ainda mais aquela filosofia barata de almanaque. Era hora de levantar e começar a luta de todos os dias. Mas hoje seria diferente. Teria que ser. Ele era um matador de aluguel que estava com um "aproveitamento", digamos assim, negativo. Ou seria positivo? Fora contratado para um servicinho como outro qualquer, "apagar" um dono de banca de jogo do bicho. Quatro tentativas. Todas frustradas e não por falta de oportunidade. Pela primeira vez numa extensa carreira ele havia ficado com pena do futuro "presunto". Um matador de aluguel com pena da vítima. O que seria isso. Hoje era a última tentativa. Se não conseguisse iria seguir o conselho do seu colega. Mas ele não iria falhar.
     Agora estava em frente à banca do jogo do bicho e a "vítima" estava lá. Pronta para ser alvejada. Ele caminha em direção ao futuro presunto e este lhe dá um belo sorriso. O matador começa a desgraçar aquele sorriso. Mais uma vez iria falhar. Dá meia volta e decide seguir o conselho do seu colega matador, iria consultar um psicólogo. Ou melhor, uma psicóloga. Teria que superar este bloqueio, afinal, aquela era a sua profissão e não sabia fazer nada mais do que matar. Caminhava desolado em direção a sua casa. Ao chegar procura logo uma  psicóloga na lista telefônica e liga desesperado
     - Alô. Dá onde falam?
     - Consultório da Dra. Sofia Meleres.
     - Que nome estranho. No guia telefônico somente consta o primeiro nome.
     - Não se preocupe, o nome da Dra. é estranho mesmo. Mas em que posso lhe ajudar?
     - Não consigo mais matar.
     Um silêncio se faz. Ele logo percebe o constrangimento no ar, dá uma risada e logo completa:
     - Brincadeira.
     A secretária pensa, só liga louco para este consultório. O último dizia que era o Napoleão e um outro se apresentava como Peter Frampton ou como o James Taylor.
     - O senhor deseja algo?
     Ele queria somente matar, nada mais. Mas não poderia dizer isso assim. Então foi sucinto.
     - Gostaria de marcar uma consulta. O quanto mais rápido melhor. Não aguento mais.
     - Como assim? Não aguenta mais?
     - Isso mesmo. Mas a consulta já começou? E pelo telefone?
     - Não... apenas me surpreendi. Nada mais. O senhor está com sorte. Temos uma vaga na agenda para hoje na primeira hora da tarde.
     - Ótimo.
     - Qual seu nome?
     - Não posso dizer. Sou procurado.
     - Mas senhor, não se preocupe aqui ninguém lhe achará. A secretária era descolada em tratar com a clientela da Dra. Sofia.
     - Coloca aí Jesus.
     - Jesus de que?
     - Jesus Cristo.
     - Senhor, desculpe. Mas preciso do seu nome verdadeiro e não de quem o senhor acha que é, entende?
     Ele já estava ficando meio irritado, só queria marcar a consulta e nada mais. Precisava daquele consulta, pois tinha que voltar ao batente para ganhar o pão de cada dia. E o pior que já tinha recebido adiantamento para apagar o tal bicheiro e se não cumprisse a sua tarefa quem viraria presunto era ele...
     - Minha senhora. A senhora pediu meu nome. E eu dei. Que culpa tenho eu que meus pais me colocaram este nome, Jesus Cristo da Silva. Este é o meu nome e não tem nada a ver com dupla personalidade. Este nome me prejudica até na minha profissão... Só faltava me prejudicar num consultório psicológico.
     - Desculpa. Não sabia... Então sua consulta está marcada para hoje às duas da tarde. Tá certo seu Jesus Cristo?
     - Muito obrigado. Estarei aí no horário marcado. Muito obrigado e fique com o meu pai...  Jesus Cristo da Silva nunca resistia a esta brincadeira final.
     Dez para as duas ele chega no consultório da Dra. Sofia Meleres. E a primeira pessoa que vê é uma mulher vestida com uma roupa toda branca. Parecia uma mãe de santo. Aliás, uma linda mãe de santo.
     - Por gentileza, tenho hora marcada com a Dra. Sofia às duas horas.
     - Sim. O senhor é...
     - Jesus Cristo da Silva.
     - Lembro. Aquele que diz "fique com o meu pai". Seu Jesus aguarde que logo a Dra. lhe chamará.
     Então Jesus Cristo da Silva senta no confortável sofá e pega a primeira revista que encontra. Para variar era uma destas revistas que ficam em todos os consultórios. E começa a folhear a tal revista. Para sua surpresa encontra a seguinte manchete: Arizinho da Escola de Samba Verde, Roxo e Lilás abre as portas da sua morada. O matador começa a se arrepender de estar em meio a esta crise de consciência, seria tão bom ter matado aquele bicheiro... Teria evitado até uma reportagem com aquela que estava lendo. Aliás se tivesse matado o tal Arizinho não estaria neste consultório. No mesmo instante a recepcionista lhe chama:
     - Seu Jesus o senhor já pode entrar, a Dra. Sofia lhe espera...
     - Muito obrigado. E caminha em direção a porta que se abre. Uma senhora de meia idade lhe aguarda com um sorriso.
     - Seu Jesus Cristo. Ouvi falar muito do senhor, sem falar naquele livrão que fala do senhor e dos seus discípulos. E dá um sorriso completando.
     - Desculpe. Não pude resistir.
     - Não se preocupe Dra. já estou acostumado.
     - O senhor já pode deitar no divã.
     Ele retira da cintura sua arma. Sempre andava armado, mesmo em meio a esta crise de consciência. era força do hábito. Coloca na mesa, junto do celular e da carteira. A Dra. vê a arma e os outros objetos. Fica pensando no porquê daquela arma. Seria Jesus Cristo um policial? Começa a anotar algumas coisas. Uma delas "mandar reformar a cortina do consultório, mas parecia um trapo velho" e "perguntar sobre aquela arma".
     - Então seu Jesus Cristo o que lhe traz aqui? Acho que podemos começar por esta pergunta simples.
     - Dra. Sofia. É muito difícil começar a falar sobre isso. Mas não consigo mais usar meu trabuco. Ando falhando nas últimas vezes. Me concentro, mas nada dá certo e isso me incomoda.
     - Entendo. Mas o senhor não é mais nenhuma criança.  E às vezes nosso subconsciente nos dá recados, temos que saber interpretá-lo. Talvez seja a hora de diminuir as atividades.
     - Mas esta é minha profissão.
     - O senhor usa o trabuco como profissão. Nesta idade ainda consegue. É a primeira vez que vejo um senhor de idade ainda na profissão mais antiga da mundo.
     Jesus Cristo não entendeu muito este comentário da Dra. Sofia. Não sabia que a profissão de matador era tão antiga assim.
     - Dra. Estou tentando nas última quatro vezes e simplesmente não consigo. O que faço?
     - Caro Jesus Cristo talvez o seu caso não seja a minha especialidade.
     - Bem que eu disse para o meu colega...
     - Mas de toda a sorte, o senhor já tomou algum remedinho? É tiro e queda. Ou melhor é tiro e levanta... Nem posso receitar. Aliás, hoje em dia pode ser comprado sem receita. Meu marido usa sempre...
     - Usa?
     - Claro. Ele é operador de Bolsa. E está sempre nervoso. Então, sempre usamos. Lingerie não estava mais dando resultados...
     - Dra. Acho que a senhora entendeu mal o meu problema...
     - Não. Entendi perfeitamente. O senhor não está mais dando no couro e usou uma linguagem figurada quando disse que não estava mais conseguindo usar o seu trabuco. Por hoje vamos ficando por aqui e na próxima consulta continuamos deste ponto.
     A Dra. levanta-se e começa a caminhar em direção à porta. Jesus Cristo não entende mais nada, a Dra. entendeu tudo errado. Ela achava que ele era brocha... Mas na verdade era tão somente um incapaz de matar e quando falava matar era no sentido literal. Ele levanta, coloca a arma na cintura, pega a carteira e o celular. A Dra. ao ver novamente a arma, lembra da pergunta.
     - Desculpe Jesus Cristo, mas o seu nome não combina com esta arma. Qual a sua profissão mesmo?
     - Sou matador de aluguel. E eu chamo minha arma de trabuco. Agora a senhora entende o meu problema. Não sou brocha, apenas não consigo mais matar ninguém. E como continuarei nesta profissão sem conseguir usar meu trabuco?
     Os dois começam a rir. Ele pensa que aquela médica era muito louca. Ela de sua parte tem certeza que era tempo de umas férias, afinal, errara o décimo diagnóstico seguido...
     - Mas Dra. o que faço se não consigo matar.
     - Jesus! Acho que temos que começar de novo nossa consulta, mas depois das minhas férias. Eu pensava que tu era garoto de programa, ou melhor, senhor de meia-idade de progama...

Trilha sonora:
Invincible - Muse - Black Holes And Revelations 
Sorry Seems to Be the Hardest Word (with Blue) - Elton John -Greatest Hits 1970-2002 (Disc 2)
Intro (Live) - Muse - Haarp (Live At Wembley)
A Horse With No Name - America - A Horse With No Name and Other Hits
Be My Girl - Sally - The Police - Message in a Box
Tropic Bird - Focus - Mother Focus
H&H - Pat Metheny, Dave Holland & Roy Haynes - Question and Answer
Pescador De Ilusões - O Rappa - Rappa Mundi
 Heart - Magic Man - Clássicos - Rock 500
Moody Blues - Ride My See-Saw - Clássicos - Rock 500
The Who - The Kids Are Alright - Clássicos Rock 500
Old Man - Stray Gators, Neil Young - Rock 70´s
Satisfaction - The Rolling Stones - Rolling Stone Magazine's 500 Greatest Songs Of All Time
Stairway to Heaven - Led Zeppelin - Rolling Stone Magazine's 500 Greatest Songs Of All Time
Ooo, Baby Baby - Smokey Robinson - Rolling Stone Magazine's 500 Greatest Songs Of All Time
My Sweet Lord - George Harrison - Rolling Stone Magazine's 500 Greatest Songs Of All Time
12 segundos de oscuridad - Vitor Ramil + Marcos Suzano - Satolep Sambatown
Espaço - Vitor Ramil - Tambong
Ammonia Avenue - The Alan Parsons Project - The Ultimate Collection (Disc 2)
Vera - Pink Floyd - The Wall - Disc II

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