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A felicidade artificial

     No sábado ouvi uma espécie de parábola que era mais ou menos assim:  
     Uma mulher ao consultar seu médico pede para que ele receitasse um antidepressivo. O médico pergunta para a paciente o porquê daquele pedido inusitado, pois não vislumbrava nenhum sintoma que revelasse alguma depressão. Ela rapidamente responde:
     - Meu pai está desenganado e morrerá em no máximo dois anos. Então quero estar preparada para quando esta tristeza chegar. Não quero sofrer. Quero criar uma espécie de blindagem para o sofrimento futuro.
     Aquela passagem contada no rádio, real ou não, retrata uma dura realidade da vida moderna. Nós tentamos evitar tudo que possa remeter a alguma tristeza. A tristeza parece ser uma doença evitada de todas as formas por todos nós. A tristeza é encarada como uma espécie de hanseníase dos tempos modernos. Todos a escondem de forma a aparentar sempre uma alegria desmesurada. É salutar, em algum momento, viver um pouco de tristeza. Faz parte da vida e nos ajuda a valorizar os momentos felizes. Algumas tristezas da vida fazem parte do aprendizado diário. Talvez assim aprendemos a ser felizes de verdade e não esta felicidade movida a antidepressivos.
     Claro que a felicidade é uma luta de todos os dias. Não nascemos com a fórmula da felicidade dentro de nós. Vamos aprendendo dia a dia. E cada um aprende a ser feliz de uma forma diferente. Da sua forma. A sociedade contemporânea nos impõe a felicidade. Se não somos felizes não podemos ser incluídos no sistema. Então, diante desta necessidade de felicidade, criou-se os antidepressivos. Estes remédios deixam todos "felizes", mas ao mesmo tempo são "fabricados" as espécies de zumbis "felizes". Isto mesmo, a felicidade artificial é facilmente notada. Basta alguns segundos de convívio para percebemos a dose de felicidade tomada pela manhã. Claro que têm pessoas que adquiriram alguma patologia e que é plenamente aceitável ministrar um determinado antidepressivo. Mas hoje em dia você revela alguma tristeza, momentânea ou não, e já nos receitam o remédio da felicidade.
     Pergunto: o que é felicidade? Cada um irá dizer alguma coisa. Todos, sem exceção, terão a sua concepção de felicidade. Então, como um remédio pode distribuir felicidade para todos. Sinceramente não é possível.
     Em julho vivi um dos dias mais tristes da minha vida. Tenham certeza que foi o momento mais difícil até então, e olha que já tinha passado por alguns momentos complicados. Naqueles dias de julho sofri, cheguei a pensar que não iria suportar, mas olhava para o lado e sentia que minha família estava vivendo comigo aquela tristeza, meus irmãos, amigos, minha mulher, minha mãe, todos estavam passando por aquele rito de passagem. E suportamos. Choramos como nunca. Volta e meia sentimos de novo uma espécie de tristeza, volta e meia a dor da perda é revelada novamente. Mas este fato por si só não seria motivo para nos emboletarmos. Pois a perda, infelizmente, faz parte da vida. Para aliviar a dor escrevi um post, cada um tem um forma de lidar com a dor da perda, eu expiei a minha dor através da escrita do post: Simplesmente, obrigado
    A felicidade está a nossa volta, depende de como encaramos a vida que levamos. Podemos achar em tudo que nos cerca coisas boas e más. Se nos fixarmos somente nas dificuldades da vida, certamente nos encaminharemos para uma tristeza profunda. Mas se por outro lado, fixarmos nossos olhos nas nossas realizações, por menores que sejam, iremos a passos largos em direção a uma vida mais feliz. Não existe felicidade perene, mas sim felicidade intermitente. Se entendermos isso seremos felizes.

Trilha sonora
Bouree - Jethro Tull - Stand Up
Coldplay - Prospekt's March , Poppyfields - Vários Artistas - EP's
See-Saw - Pink Floyd - A Saucerful Of Secrets
Honky Tonk Women - The Rolling Stones - Get Your Leeds Lungs Out, Revisited - Leeds, England
Get Up (I Feel Like Being A) - Sex Machine - James Brown - Rolling Stone Magazine's 500 Greatest Songs Of All Time
Locomotive - Guns N' Roses - Use Your Illusion II
Jive Talkin' - Bee Gees - Their Greatest Hits - The Record (Disc 1)
25 Or 6 To 4 - Chicago - Rock 70´s


Comentários

  1. Sensacional (como você mesmo diz)!!
    Felicidade artificial até ajuda, mas não traz os benefícios daquela sentida de verdade. A vida vale à pena quando vivemos tudo com intensidade.
    Li o texto "Simplesmente, obrigado" e me emocionei com os sentimentos expressos nele. As pessoas que cruzam nosso caminho e mudam nossa existência para melhor chamo de ANJOS. Anjos que nos mostram o caminho a seguir e deixam sua marca nos nossos corações. Abraços ao meu irmão do coração. Lisandra

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  2. Oi Leandro! A tua crônica "Simplesmente obrigado" foi das mais lindas que já li. É emocionante.
    A tua crônica de hoje dispensa comentários, "a tristeza é encarada como uma espécie de hanseníase dos tempos modernos". É verdade. E quanta superficialidade existe nesta falsa completa ausência de tristeza que muitos tentam aparentar...
    Ultimamente tenho precisado de uma ajudinha em forma de cápsulas para conseguir dormir... (sono artificial, que não deixa de ser uma felicidade artificial)heheheh..
    Um grande abraço, teu blog está demais!!!!
    Ana

    ResponderExcluir
  3. Falaê Exoman:

    Também gostei muito dessa frase: "A tristeza é encarada como uma espécie de hanseníase dos tempos modernos, todos a escondem de forma a aparentar sempre uma alegria desmesurada."

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