Pular para o conteúdo principal

O viciado em Rolling Stones

     Todos diziam que Mauro Sérgio era viciado. Ele não achava.
     Mas parou para pensar. Todas as músicas do seu iPod era Stones, todas as músicas no seu computador era Stones, ele só ouvia Stones e já fazia uns 15 anos. Nunca havia percebido, mas sempre que estava ouvindo alguma música era Stones. Foi dar uma olhada na sua coleção de VHS, tudo Stones, olhou seus CDs, todos dos Stones. Tinha muitas camisas com estampas dos Stones... Será que era viciado? Ele ainda estava em dúvida. Foi dar uma olhada nos seus DVDs e Blu-Rays, todos, sem exceção, eram Stones. A dúvida persistia. Foi se olhar no espelho, tinha três tatuagens que retratavam ... Stones. Não havia dúvida, era um viciado em Rolling Stones... Ele sabia qual era o tratamento, mas nem pensava em experimentar. Conhecia um amigo que era viciado em Pink Floyd e o tratamento dele foi muito duro, nem fazia bem lembrar em que ele passou.
     Mauro Sérgio estava em dúvida sobre o que fazer. Mas agora tinha que ir trabalhar e foi se vestir. Sempre trabalhava de terno e gravata, pois sua profissão assim exigia. Colocou por baixo uma regata com a estampa dos Stones... E, para completar, a gravata era com a língua dos Stones. Mas, isso não queria dizer nada, pois muitas pessoas usavam cada gravata estranha, a dele era bonita... entrou no carro e começou a tocar Back Of my Hand dos Stones. Ao chegar no escritório ligou o seu computador e colocou um som ambiente, só conseguia trabalhar embalado por música... Claro que Stones. A situação estava complicada mesmo. Olhou o seu escritório e tudo remetia aos Stones, ingressos emoldurados, autógrafos do Brian Jones, Keith Richards, Mick Jaeger, Ron Wood, Mick Taylor, Bill Wyman e Charlie Watts, fotos de vários shows pelo mundo espalhados em vários álbuns.
     Os seus clientes achavam estranho, mas não comentavam, o Dr. Mauro Sérgio era assim mesmo, muito doido, mas um competente profissional, isso que importava.
     Mas hoje o Dr Mauro se deu conta que era viciado em Stones e tomou a decisão mais difícil da sua vida,  iria se internar para tratar deste vício. Mas só em pensar no tratamento já sentia calafrios, lembrava do amigo viciado em Pink Floyd... A gota final foi quando entrou no banheiro, o mictório era a língua símbolo dos Stones.
     Imediatamente ligou para a esposa:
     - Luana, preciso de ajuda... realmente sou viciado. Providencia a  minha internação na clínica.
     Chorando e olhando para o telelefone que era língua dos Stones, Luana desabafou:
     - Mauro, que bom que tu tomou consciência do teu vício... Eu estarei ao seu lado para o que der e vier. Já vou ligar para a Clínica e eles vão te buscar no escritório. Fica calmo, tudo vai dar certo...
     Alguns minutos depois tocaram a campainha do escritório do Mauro e ele já sabia quem era. Começaria o seu tratamento.
     Ao chegar na Clínica de Reabilitação sentiu que estava entrando numa estrada sem volta, viu uns aparelhos de som em salas isoladas e começou a tremer. O tratamento seria duro. Foi informado que o tratamento iniciaria o mais rápido possível.
     No dia seguinte foi encaminhado a uma das salas de audição e o colocaram lá com uns fones de ouvido bem grandes para ouvir Luan Santana Ao Vivo, enfim, começara o pior tratamento da sua vida...
     Seis meses depois saiu da clínica "curado", agora era um cara limpo, mas tinha um porém, queria comprar todos os discos do Luan Santana... Encontrou o amigo que era viciado em Pink Floyd, este acabara de adquirir  todos os discos do Chitãozinho e Xororó. Os dois choraram muito... Concluiram que trocaram suas idiossincrasias por drogas... É a vida...


Trilha Sonora 
Hoje escrevi sem trilha sonora, pois acho que estou me viciando, pararei de ouvir tanta música, não quero passar pelo tratamento do Dr. Mauro Sérgio.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ocaso!

    Faz muito tempo que não entro aqui para escrever. Aliás, faz muito tempo que não acesso o blog. Ele está em um processo de hibernação. Quase uma vida mantida por aparelhos.     O motivo? Talvez o ocaso do LedVenture esteja próximo. Gosto da palavra ocaso. Penso em um caso qualquer, uma história qualquer que será contada. É o tipo de palavra que o som te carrega a muitos lugares e situações. Mas voltado desta pequena digressão, o LedVenture sempre foi um personagem vivido por este blogueiro neófito. Um personagem que por breves momentos adquiriu vida própria. Um personagem que ultrapassou os limites da ficção e viveu algumas experiências muito interessantes. Outras nem tanto.      Cruzam ambulâncias aqui perto, correndo não sei para onde, talvez para acudir este blogueiro, talvez não... As ambulâncias passarem e a vida volta ao normal por aqui, não me acudiram. Parece que não foram chamadas para me atender.  Na verdade não prec...

Somos 99%

     Somos uma parcela significativa de qualquer sociedade. Somos os 99%. Apesar de sermos a imensa maioria, ainda assim somos excluídos de quase tudo. Somos chamados somente quando os detentores das riquezas, os outros 1%, precisam de nossos sacrifícios.      Como é possível que uma sociedade, com alicerces tão frágeis, fique de pé por tanto tempo? Não tenho a resposta. Entretanto, sinto que algo está mudando e muito rapidamente. Esta sociedade injusta já não está mais tão firme e começa a ser questionada. Nos últimos meses estamos acompanhando vários movimentos sociais espraidos pelo mundo. É a voz dos 99% se fazendo ouvir. Estamos cansados de sacrifícios intermináveis. E sempre dos mesmos para os mesmos. Nunca são chamados os detentores da riqueza. Um porcento da população nunca se sacrifica, mas quando aparece alguma dificuldade, criada pela ganância deles, colocam de lado suas convicções e imploram ajuda dos governos. Estes governos que sempre foram...

A casa não vai cair...

     Um amigo, aliás, um ótimo amigo escreveu algo que me fez pensar: "... enquanto nos perdemos nos detalhes, contando, classificando... a vida passa e a casa vai caindo, pouco a pouco."      Este amigo em poucas palavras me mostrou o que somos, ou melhor, no que nos transformamos.      Parece que deixamos de lado o quadro para prestarmos atenção na moldura, sabemos tudo sobre este detalhe, o ano da fabricação da madeira, o tipo e forma do corte, esquecemos de olhar o quadro em si. Fechamos os olhos para a pintura...      No início o não entendi, pois o simples nos é tão difícil de entender, sempre estamos  querendo transformar esta simplicidade em algo complexo. Mas esta simplicidade quando nos é revelada nos abre olhos, enxergamos além da moldura, passamos a ver o conteúdo do quadro; nos surpreendemos com o que surge aos nossos incrédulos olhos.      Parece que somos criados para somente fazermos part...